Artigo completo sobre Agadão: entre o rio e a serra da Bairrada
Freguesia de Águeda onde a altitude, as romarias e a Carne Marinhoa moldam o quotidiano rural
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O sino da igreja de Agadão toca às sete e meia — sempre às sete e meia —, abafado pelo nevoeiro que desce do Viso pela manhã. A água do rio Agadão ouve-se, mas só se vê de junho a setembro, quando a vegetação baixa. A 322 metros de altitude, entre a serra do Caramulo e a planície da Bairrada, vivem 471 pessoas em 3.905 hectares. São 16 por km²: menos do que os 19 que tinha em 1981, quando o INE contou 598 habitantes.
Terra de água e de fé
O topónimo aparece em 1258 como «Ágada» na Inquirição de Afonso III. O rio nasce no Viso a 560 m de altitude e desagua no Águeda aos 42 m, 35 km depois. A última ponte de pedra data de 1897 — ainda se atravessa a pé para chegar ao campo da Areosa.
As romarias são duas. A das Almas, na Areosa, é no domingo de Pentecostes; reúne cerca de 300 pessoas, o dobro da população local. A do «Milagre de Urgueira» acontece a 15 de agosto: missa cantada às 11h00, procissão com a imagem de Nossa Senhora da Graça até ao cruzeiro de 1903, almoço de bacalhau na Casa do Povo. A banda filarmónica vem de Águeda desde 1962, quando comprou o primeiro clarinete usado.
Sabores da Bairrada e da planície
A Carne Marinhoa DOP que se come em Agadão vem dos 28 bovinos da herdade do Cabeço da Mula, criados ao ar livre 365 dias por ano. O Matadouro Municipal de Águeda, a 12 km, abate duas reses por mês; a carne é vendida na mercearia da D. Rosa, aberta desde 1974.
Os Ovos Moles chegam de Aveiro em caixas de pinho forradas a papel de arroz, mas a sobremesa caseira é o «bolo de cabeça» — pão-de-ló moldado em forma de touca, receita da Irmã Doroteia que ensinou em 1958 às mulheres da Misericórdia.
Na cave da Cooperativa Agrícola de Agadão, fundada em 1955, ainda há 14 produtores que entregam uva. A colheita é em setembro: 80 000 kg de Baga e 20 000 kg de Touriga Nacional renderam 650 pipas de vinho tinto em 2023. O espumante bruto natural passa 18 meses em cave antes de sair para as garrafas verdes de 0,75 l.
Trilhos de peregrinos e caminhantes
O Caminho Central Português entra na freguesia junto ao marco 28, na estrada nacional 1, e sai 4,2 km depois, já perto do Viso. São dois pontos de água potável: a fonte da Lameira (GPS 40.5312, -8.4111) e a capela de Santo António em Urgueira, onde a chave fica com o Sr. Américo, à porta nº 42.
Não há albergue. Quem pernoita dorme na Casa do Caminho, moradia registada desde 2019 no Turismo de Portugal (RNAL 102060/AL), com três quartos e pequeno-almoço com broa de milho da padaria Oliveira, em Belazaima.
O percurso municipal PR4 «Agadão – Viso – Cabeço da Mula» tem 9,3 km e 350 m de desnível; demora 3h30. O placard na rotunda indica o tempo certo: 1h45 até ao Viso, 1h45 de volta pela Mata da Margaraça.
Ao cair da tarde, quando o sol se põe por detrás do Caramulo às 19h27 no dia 21 de junho, o sino toca outra vez. São as badaladas da missa da cadela, missa por todos os defuntos desde que o padre António Silva, em 1932, prometeu tocar sempre que morresse um agadonense.