Artigo completo sobre Aguada de Baixo: vinhas, águas e São Martinho
Freguesia da Bairrada regressa à autonomia em 2025, entre o Cértima e a tradição vinícola de Águeda
Ocultar artigo Ler artigo completo
O estalido das castanhas no borralho chega antes do aroma — um cheiro terroso, quente, que se mistura com o fumo da lenha de carvalho e o vinho novo a escorrer para os copos de vidro grosso. É novembro em Aguada de Baixo, e a festa de São Martinho transforma o adro da igreja num palco de mãos escurecidas pela cinza e risos que ecoam entre as paredes caiadas. Aqui, no coração da Bairrada, a altitude mal passa dos vinte e cinco metros, mas a terra sobe em suavidade, ondulando entre vinhedos e pomares que seguem o vale do Cértima como dedos verdes estendidos sobre o xisto e a areia.
A água que deu nome ao lugar
O nome vem da água. Documentos do século X falam de «in ripa de Agada» e «circa riuulo Agata», sempre a apontar para os cursos que cortam este território de planície. O rio Cértima atravessa a freguesia em curvas lentas, criando lameiros onde o gado da raça Marinhoa pasta entre salgueiros e choupos. A distinção «de Baixo» nasceu da necessidade — havia outra Aguada, montante no mesmo vale, e era preciso separar as águas. Em 2025, depois de doze anos fundida com Barrô, a freguesia voltará a existir sozinha, com os mesmos limites que sempre conheceu. Não é nostalgia — é reconhecimento de uma identidade que nunca se diluiu.
Pedra, talha e espuma
A Igreja Matriz guarda uma imagem de São Martinho atribuída ao grupo coimbrão do final do século XV, madeira policromada com a firmeza dos santos que atravessam séculos sem pestanejar. Ao lado, o cruzeiro barroco do século XVII ergue-se em calcário, planta quadrada, colunas assentes em pedestais que resistem à chuva e ao sol com a mesma indiferença das oliveiras centenárias. A Capela do Espírito Santo, também setecentista, tem retábulo de madeira entalhada, dourado que capta a luz das velas e a transforma em tremor. Há fontes — a da Moura e a da Igreja, esta última com traços românicos, água fria que corre o ano inteiro e que os caminhantes do Caminho Central Português de Santiago bebem antes de seguir para Landiosa.
E há as Caves Primavera. Já em 1890 produziam espumante pelo método clássico, garrafa a garrafa, uma das primeiras adegas cooperativas da Bairrada a fazê-lo. A arquitectura industrial vinícola conta-se em paredes de tijolo, portas altas, o cheiro adocicado das leveduras e o silêncio das caves subterrâneas onde o tempo fermenta devagar.
O que se come, o que se bebe
Leitão assado na brasa de carvalho, pele estaladiça que cede sob a faca e liberta gordura translúcida. Chanfana de bode, carne que se desfaz no vinho tinto, acompanhada de batatas fritas douradas e quentes. Cozido à portuguesa com couves da horta e enchidos fumados, o tipo de prato que exige segundo prato e conversa longa. A Carne Marinhoa DOP, criada nos campos de bairro a sul, tem o sabor concentrado dos pastos de planície. E os Ovos Moles de Aveiro IGP, doçaria conventual de gemas e açúcar, chegam às mesas em pequenas hóstias translúcidas, doçura pura que cola aos dedos.
O vinho é espumante, branco ou tinto — sempre Bairrada. O território sabe-o: o solo de xisto e areia, a altitude suave, o vale que protege da brisa atlântica sem a bloquear de todo. Jeropiga no São Martinho, vinho novo a estrear a vindima.
Romarias entre vales
No domingo de Páscoa, a Romaria das Almas Santas da Areosa percorre caminhos rurais entre capelas e chafarizes, procissão que avança devagar, parando onde a água brota e onde os mortos estão enterrados. Em honra de Nossa Senhora da Urgueira, há missa campestre e procissão luminária — o Milagre de Urgueira celebrado com velas que tremem ao vento do Cértima. Maio traz Nossa Senhora de Fátima, com o orfeão do Paraíso Social e as associações locais a encher o adro de vozes e bandeiras.
Caminhar, pedalar, provar
Os trilhos pedestres entre Vale do Grou e Vale do Mouro seguem o rasto dos peregrinos, terra batida entre vinhedos e bosques de carvalho. O miradouro do Alto da Póvoa abre a vista sobre a planície cerealífera até à serra do Caramulo, linha azul no horizonte. Há rota de cicloturismo até Sangalhos, atravessando eiras de milho e vinhas ordenadas em filas. E há o rio — canoa no Cértima, remo que corta a água mansa, aves ribeirinhas que levantam voo ao som da passagem.
O cruzeiro barroco, ao pôr do sol, recebe luz rasante que desenha sombras longas sobre o calcário. O silêncio é denso, quebrado apenas pelo sino da igreja e pelo murmurar distante de vozes que saem da pastelaria com caixas de ovos-moles nas mãos.