Artigo completo sobre Aguada de Cima: vinhas, romarias e planície fértil
Entre vinhedos da Bairrada e tradições seculares, a vida rural mantém o seu ritmo próprio
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O fumo sobe direito das chaminés, mas não é sempre assim: quando a norte sopra a ventania, a fumaça inclina-se quase ao nível do telhado e leva o cheiro da lenha para a estrada. Aguada de Cima estende-se como um tapete de terra batida entre o Rossio de Aguada de Baixo e a cumeada de Urgueira; nem sempre são "setenta metros", porque o terreno ondula de leve e, na parte alta, junto ao cruzeiro da Areosa, o olhar descai até ao Mondego lá longe. Depois da chuva, a argila cola-se às solas de borracha e faz escavar na campa do caminho — quem vier de ténis branco leva-o castanho em dois tempos.
No coração da Bairrada
As vinhas não desenham "geometrias rigorosas" senão nos parcelários novos; nos campos antigos, a linha torta do muro de pedra é que manda, e a videira ampara-se no olmo morto que ainda serve de tutor. A vindima começa quase sempre na festa de Nossa Senhora das Graças: umas mãos roxas de baga rota, outras pegadas de mosto no chão da adega. Quando o Baga fica doce, o corvo já o sabe e almoça-se de uva antes dos humanos. Nas caves de solha, o odor a levedo entranha-se na roupa: quem entra sai com o casido a cheirar a pão-que-ainda-não-é-pão.
Carne Marinhoa há, sim, mas é nos restaurantes da EN1 que se sente o trunfo: gordura que derrete na tostadeira, osso que faz caldo no dia seguinte. Pão de milho com manteiga de sal, azeite de Macinhata e um copo de tinto aberto à pressão — mais honesto que qualquer DOP escrito em cardápio.
Dois santuários, duas romarias
A Romaria das Almas é no domingo da Trindade: começa na capela que tem o teto pintado de azul-céu e acaba na tenda das bifanas, onde o pai-de-família leva a caneca de cerveja e os miúdos levam o cabelo cheio de algodão-doce. Urgueira, por sua vez, é em setembro; logo às cinco da manhã o sino da matriz dá o primeiro toque e as senhoras acendem o bero para levar o menino das lanternas. Quem carrega a andora são os mesmos que na semana anterior estavam a podar a vinha — trocam a enxada pela corda e reclamam exactamente da mesma dor nas costas.
Caminho de peregrinos
O Caminho Central entra pela Rua do Calvário e sai pela vereda da Chiqueira. Quem pede água à porta da dona Adelaide leva-a num caneco de alumínio e ainda leva um pedaço de broa de milho "para não andar só com o estômago a ranger". O albergue é a antiga escola primária: há um caderno onde os peregrinos deixam o recado — "Demasiado cedo para snorers", lê-se em espanhol rabiscado. O único hotspot de Wi-Fi é o café O Padrão; a senhora da limpeza desliga o router às dez da noite porque "as luzes azuis atrapalham o sono do Zé".
O peso do quotidiano
Não há centro, há é o "Largo": duas bancas de jornal partilhadas, o multibanco que às vezes fica sem papel e o pé-de-meia do Eduardo que vende tabaco e sabe de cor quem fuma SG e quem foma ROTH. Quando o nevoeiro sobe do Mondego, o farol da Mamarrosa parece um olho aberto a piscar de vez em quando. As crianças apanham o autocarro às sete e meia; se perdem, o pai vai em direcção à Mealhada e a mãe vai até ao Céspedes, porque é assim que o trânsito divide a freguesia.
Nas hortas, a couve-galega é plantada depois de São Martinho e cortada antes da quaresma; sobra sempre uma para o caldo de quinta-feira. Os espigueiros já não guardam milho, guardam ferramentas e brinquedos partidos — servem também para encher as fotos de quem passa e acha que ainda estamos no tempo do "mais pequeno e do mais doce".
No fim do dia, quando se apaga o último motor de tractador, sobra o crepitar da lenha e o cão que ladra longe. O céu, esse, continua indeciso: ora deixa cair uma fina que nem molha, ora descobre uma fresta de laranja atrás dos eucaliptos. A planície não promete nada, mas entrega tudo: o barro nos sapatos, o gosto acre do vinho na boca, o badalar que se repete no mesmo compasso que o pai do meu pai já ouvia.