Artigo completo sobre Belazaima do Chão: cruzeiros manuelinos no vale do Cértima
Freguesia de Águeda onde a pedra classificada e as romarias moldam o calendário rural desde 1516
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A luz da manhã atravessa o adro como quem abre janela em casa de avó: devagar, para não assustar ninguém. A sombra dos dois cruzeiros manuelinos estende-se pela calçada irregular como lençol mal esticado. Um deles, o da entrada, tem a pedra tão lisa que parece que a aldeia toda passou por ali a apanhar boleia para o campo. Ao fundo, o Ribeiro de Albergaria canta sempre a mesma cantiga — aquela que as crianças aprendem antes de sabem ler e que os velhos ainda ouvem quando os dentes já não servem para morder.
Pedra, procissão e barro vermelho
Belazaima do Chão é tipo aquela mesa de café que só cabem quatro pessoas: 472 almas, conta o recenseamento, mas basta uma boda para faltar lugar. Tem mais cruzeiros classificados por quilómetro quadrado que o Sporting de títulos nas últimas décadas — e isso em Aveiro é dizer muito. O nome vem de quando os mouros andavam por cá e "Balasaima" soava a terra que não era de ninguém. Depois juntaram-lhe "do Chão" para não confundir com a outra, a de Cima, que hoje é Oliveira do Bairro e anda com ar de quem se esqueceu da prima pequena.
A igreja matriz, reconstruída no século XVIII, guarda azulejos que só se vê de sábado de manhã — é subir a torre e esperar que o sacristão abra a porta com a mesma chave que serve para a cervejeira do clube. Do alto, o olhar engole soutos de castanheiro que descem até ao Cértima como cachecol de lã largo.
Nos lugares mais afastados — Póvoa, Areosa, Urgueira — as capelas são como as tascas: pequenas, mal iluminadas, mas com história para encher o ano. A Romaria das Almas Santas da Areosa leva andores carregados só por mulheres, como se os homens já não bastassem para aquilo. No domingo de Pentecostes, distribuem pão-de-Deus e vinho novo — e ninguém leva garrafa de casa, porque se bebe ali mesmo, de copo de plástico, ao sol.
Chanfana, enguias e vinho da Bairrada
A chanfana de Belazaima faz-se na panela de barro que a avó guarda no armário de cima, a mesma desde 1978. Cabrito ou bode, vinho tinto da Bairrada, colorau, alho, louro e piri-piri — é deixar ferver como desabafo de vizinha: devagar, mas até ao fim. O "O Moinho" serve às sextas e sábados, acompanhado de Baga que faz mossa na língua mas cura o coração.
As enguias vêm do ribeiro, são fritas e depois estufadas com cebola, tomate e pão de milho torrado — tipo rabo de saia, mas que se come. No inverno, as papas de milho com couve e feijão branco são o que as sopas da avó queriam ser quando crescessem. A Carne Marinhoa aparece em bitoque ou espetada, mas é o queijo de ovelha curado, com 60 dias de idade e sabor que lembra o primo que só vai à aldeia no Natal, que fecha a porta a fingir que não tem fome.
O trilho, o moinho e a rola
O Trilho do Ribeiro de Albergaria são 6 km que se fazem em meia tarde — se levar mochila, se calhar leva sandes. Parte da igreja, passa pelo moinho do século XIX que agora é museu privado (abre quando o dono está), e sobe até ao Chão da Rola, onde a pedra granítica serve de sofá a quem quer ver o mundo de cima.
As lagoas temporárias são como as visitas da cunhada: aparecem sem avisar, trazem libélulas e rãs, e vão-se embora sem deixar número. Em setembro, abrem-se as portas para a vindima — há lagarada, mosto e sempre um tio que promete "só um copinho" e acaba a cantar fados de Oliveira do Bairro.
Ao segundo domingo de cada mês, o mercado na Praça da República é como feira da ladra, mas sem ladrões: queijo, mel de urze, pão de milho e cestos de vime que a mãe diz que são para o pão, mas depois servem para guardar meias. Na olaria, o galo de barro nasce outra vez — o mesmo que perdeu a cabeça no cruzeiro da entrada e agora é mascote da cidade, tipo herói local que ninguém conhece mas todos fotografam.
O barro vermelho endurece, o vinho aquece, mas o som da água no ribeiro é o que fica — como o nome do primeiro amor, que ninguém diz, mas toda a gente sabe.