Artigo completo sobre Castanheira do Vouga: romarias e caminhos de serra
Freguesia de Águeda onde o Caminho de Santiago cruza tradições religiosas e paisagens de altitude
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A estrada nacional 234-2, antes designada Estrada Municipal 123, serpenteia entre pinhais e vales até que o asfalto se rende à gravidade suave da serra. Aqui, a 216 metros de altitude, Castanheira do Vouga distribui-se pelas encostas como quem não tem pressa de chegar a lado nenhum. O silêncio é denso, quebrado apenas pelo som distante do cão do Sr. Arménio — sempre o mesmo, às 17h30 — e pelo vento que percorre os eucaliptos plantados em 1974, após o incêndio que consumiu 200 hectares. São 472 habitantes espalhados por 2.971 hectares — densidade que se traduz em distância entre casas, em caminhos de terra batida que ligam o que os mapas já esqueceram.
Romarias que Atravessam o Ano
O calendário religioso marca o pulso desta freguesia. A Romaria das Almas Santas da Areosa, no primeiro domingo de agosto, reúne cerca de 120 romeiros que sobem a pé desde o Largo da Igreja Matriz, percorrendo 3,5 quilómetros de caminho de xisto. A Romaria do Milagre de Urgueira, a 15 de agosto, traz à ermida de Nossa Senhora da Boa Viagem — construída em 1713 — os 23 habitantes restantes do lugar de Urgueira, mais os filhos que regressam de Lisboa para o fim-de-semana.
Os 157 idosos (INE, 2021) superam em muito os 44 jovens até aos 14 anos. A procissão avança ao ritmo da D. Rosa, 87 anos, que carrega a andor desde os 12. O padre António — o único que restou — tem de esperar que elos romeiros cheguem, porque "a romaria não tem pressa, tem memória".
O Caminho Central Português de Santiago atravessa estas terras desde 2012, quando a associação local marcou o trilho com as conchas amarelas. Alguns peregrinos param junto às capelas para encher cantis na Fonte da Pipa, construída em 1897 com dinheiro dos emigrantes do Brasil. Não procuram monumentos classificados — Castanheira do Vouga não os oferece —, mas sim a cadência lenta de um território que obriga a andar devagar.
Carne Marinhoa e Ovos Moles: Tradição à Mesa
A gastronomia ancora-se na Carne Marinhoa DOP — os 28 bovinos da raça autóctone que pastam nos 8 hectares do Sr. Albano, no lugar de Casal. Não há restaurantes, mas há a Tia Albertina que, todas as sextas-feiras, cozinha para quem lhe bate à porta: carne assada no forno a lenha durante 4 horas, temperada com alho e louro da sua horta, acompanhada de batata reinata plantada pelo neto.
Os Ovos Moles chegaram aqui pelas mãos da Irmã Doroteia, que em 1953 regressou ao Mosteiro de Arouca trazendo as receitas do convento. Ainda hoje, 12 mulheres do lugar as fazem em casa, vendendo-as à porta da Igreja no domingo — €3,50 a dúzia, embrulhadas em papel de cor azul-celeste que a D. Lurdes compra na papelaria de Águeda.
Paisagem de Meia-Encosta
A natureza aqui não é espetacular — não há miradouros instagramáveis nem cascatas imponentes — mas há o Vale do Bestança, onde o ribeiro homónimo corre entre fetos e silvados desde que, em 1963, a barragem de Castanheira o desviou do leito original. É território para caminhar sem mapa, para seguir as marcas deixadas pelo Sr. Domingos no trilho da cortiça — 37 árvores marcadas com X vermelho, onde todos os anos tira 200kg de cortiça que vende à fábrica de Albergaria-a-Velha.
O ar tem o cheiro indefinível da serra — terra húmida das chuvadas de novembro, resina dos pinheiros da Mata da Sobrido (comprada pela Câmara em 1942 por 80 contos), fumo de lenha de carvalho que sobe das 128 chaminés ainda activas. Não há pressa. Não há multidões. Há apenas a cadência lenta de um lugar onde o sino da Igreja Matriz — fundada em 1567, reconstruída após o terramoto de 1755 — ainda toca às 12h00 e às 19h00, organizando o dia como fez o avô do actual padre.