Artigo completo sobre São João de Loure e Frossos: terra de peregrinos
Entre plátanos centenários e pelourinhos, duas aldeias unidas pela história e tradição
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O sino da Igreja de São João Baptista marca as seis da tarde e o eco prolonga-se sobre os campos que se estendem até ao horizonte, interrompido apenas pelo verde dos plátanos junto ao parque. Nas ruas estreitas, o granito das calçadas guarda a memória dos peregrinos que, há séculos, atravessam esta terra a caminho de Santiago de Compostela. O cheiro a lenha sobe das chaminés ao fim da tarde, misturando-se com o aroma húmido da terra recém-lavrada. Aqui, entre São João de Loure e Frossos, a planície aveirense respira ao ritmo das estações e das festas que pontuam o calendário.
Duas aldeias, uma história partilhada
Frossos foi vila e sede de concelho durante sete séculos — entre 1514 (foral de D. Manuel) e 1836 —, um estatuto que o Pelourinho ainda testemunha no centro da aldeia. A pedra lavrada ergue-se como memória de uma autonomia perdida, quando a vila se chamava Faroços e tinha voz própria na administração do território. São João de Loure, por seu lado, esteve ligada à vizinha Angeja antes de, em 1836, com a reforma administrativa de Mouzinho da Silveira, se fixar no concelho de Albergaria-a-Velha. Ambas as freguesias partilhavam a tutela do Mosteiro de Jesus de Aveiro, que aqui nomeava os párocos e geria as terras desde o século XV. Em 2013, a união administrativa juntou o que a história já aproximara, mas o debate sobre a desagregação voltou em janeiro de 2024, quando a Assembleia de Freguesia aprovou por unanimidade o pedido de desanexação - ainda sem resposta da Câmara Municipal.
Pedra, fé e sombra dos plátanos
A Igreja de São João Baptista e a Igreja de São Paio marcam os dois núcleos da freguesia com as suas torres sineiras visíveis de longe. O Cruzeiro de Frossos, datado de 1751, e o Cruzeiro do Adro da Igreja pontuam os caminhos, sinais de devoção esculpidos em granito que resistem ao tempo. Nas capelas de Santa Ana e de São Miguel, a cal das paredes reflete a luz das velas acesas pelos devotos. Mas a freguesia não vive apenas do património religioso: o Parque dos Plátanos, em São João de Loure, plantado nos anos 90 do século XX, oferece sombra densa nos dias de verão, enquanto o Parque da Boca do Carreiro, em Frossos, convida ao passeio entre o verde e o murmúrio da água. O Poço do Barreiro, aberto em 1923, guarda histórias de tempos em que a água se ia buscar a pé, cântaro ao ombro.
Caminhos que atravessam o tempo
O Caminho Central Português de Santiago corta a freguesia desde o século XII, trazendo peregrinos que, de mochila às costas, atravessam os campos em direcção ao norte. Nas manhãs de nevoeiro, as suas silhuetas desenham-se entre os eucaliptos e os pinheiros, seguindo as setas amarelas pintadas nos muros. A caminhada e o trail running anual da freguesia mobilizam locais e visitantes, transformando os caminhos rurais em percursos de esforço e contemplação. A Casa da Quinta das Vinhas de Bocage, construída no século XVIII, lembra a presença de famílias que moldaram a paisagem ao longo de gerações, entre vinhas e pomares.
Mesa de rio e de terra
A caldeirada de enguias é o prato que melhor traduz a proximidade aos cursos de água da região - o Rio Caima e o Rio Marnel a menos de 5 km. O peixe de rio, cozinhado em lume brando com tomate, pimento e coentros, enche a cozinha de um aroma inconfundível. Os roibacos e os carolos de milho são testemunhos de uma agricultura que ainda resiste, enquanto a carne de porco surge assada ou estufada nas mesas das festas. As papas de abóbora, doces e cremosas, aquecem as noites frias de inverno. E porque Aveiro não está longe - a 25 km -, os Ovos Moles IGP aparecem nas celebrações, com a sua doçura conventual envolta em hóstia fina.
Festas que pontuam o ano
São João, a 24 de junho, acende fogueiras junto à Igreja Matriz e enche as ruas de música e conversa até altas horas. São Bartolomeu, em 24 de agosto, junta a comunidade de Loure em procissão e arraial no adro da igreja. A Senhora do Livramento celebra-se duas vezes — a 15 de agosto e no segundo domingo do mesmo mês —, com flores nos andores e missas solenes na ermida do mesmo nome. São Silvestre abre o ano no primeiro domingo de janeiro, enquanto São Paio, no primeiro domingo de maio, e São Miguel, a 29 de setembro, mantêm viva a devoção aos santos padroeiros. Em anos eleitorais, estas festas ganham sabor político - os candidatos não faltam às bancas de vinho e petiscos.
O nevoeiro da manhã levanta-se devagar sobre os campos de milho, revelando os telhados vermelhos das casas e o perfil das igrejas. No Parque dos Plátanos, as folhas sussurram ao vento enquanto os peregrinos ajustam as mochilas e retomam a caminhada. Fica o som dos sinos, o cheiro a terra molhada e a certeza de que, por aqui, o caminho nunca é apenas passagem.