Artigo completo sobre Avelãs de Cima: 30 espigueiros entre vinhas e granito
Avelãs de Cima, em Anadia, reúne 30 espigueiros históricos, a Igreja de Santiago Maior com talha dourada e pontes de granito entre vinhedos e vales.
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Al caer la tarde, el humo asciende de las chimeneas y se despliega sobre los hórreos, cargado de olor a leña de roble y a chorizo en el ahumadero. La campana vuelve a tañer —no para marcar la hora, sino para medir la vida que aquí persiste, contada en vendimias, procesiones y hornadas de pan.
O badalar do sino na Igreja de Santiago Maior corta o silêncio da manhã, ecoando sobre os telhados de telha vermelha e os espigueiros de madeira que pontuam a paisagem. Em Avelãs de Cima, o ar traz o cheiro de lenha a arder nos fornos onde o leitão começa a dourar, misturado com o aroma húmido da Ribeira de Avelãs que atravessa os vales entre vinhedos. A luz rasante da manhã ilumina as folhas de parreira, já tingidas de dourado no fim do verão, enquanto o granito das pontes antigas — a Ponte do Rodeiro, a Ponte da Valada — reluz sob a humidade da noite anterior.
O peso dos espigueiros
Avelãs de Cima possui a mais elevada concentração de espigueiros do concelho de Anadia: trinta e dois espigueiros identificados pela Câmara Municipal em 2019, a maioria em madeira de pinho com base em xisto, erguidos entre os séculos XVIII e XX. O mais antigo, pertencente à família Gomes na Quinta do Casal, guarda ainda inscrita a data de 1783 na viga mestra. Estes armazéns elevados, com as suas frestas que deixam circular o ar sem convidar os roedores, guardam o milho e o centeio ao abrigo das chuvas atlânticas. Caminhar entre eles é tocar numa materialidade teimosa — a madeira gretada pelo tempo, o cheiro a palha seca, o ranger das tábuas quando o vento sopra da Mata da Escarpa. O topónimo da freguesia aparece em documentos de 1258 como "Avelães", derivado das avelanzeiras que cobriam as encostas; hoje são os espigueiros que definem a sua silhueta, pontuando os campos como sentinelas de um tempo que ainda não acabou.
Talha dourada e azulejo pombalino
No centro da aldeia, a Igreja Paroquial de Santiago Maior abre as portas para um interior setecentista onde a talha barroca resplandece à luz das velas. O retábulo-mor, atribuído ao mestre José de Almeida e datado de 1743, enquadra um painel de azulejos pombalinos de 1767 que narra, em 42 placas de azul e branco, episódios da vida do Apóstolo Santiago. O painel foi encomendado pelo abade Manuel de Matos Coelho, cujo brasão ainda se vê na sacristia. A poucos passos, a Capela de Nossa Senhora dos Aflitos oferece um rococó mais discreto, popular, onde as mulheres da freguesia acendem velas e murmuram ladainhas. No adro, o Cruzeiro de 1782 em pedra de Ançã resiste ao tempo, com a inscrição "S. Santiago / 1782" legível no fuste, testemunho silencioso das procissões que aqui param todos os 25 de julho, quando os foguetes rasgam o céu e o arraial invade a praça.
Da vindima ao Enterro do Bacalhau
O calendário de Avelãs de Cima organiza-se entre o sagrado e o agrícola. Em setembro, o Festival da Uva e do Vinho — iniciado em 1993 pela Comissão de Festas — transforma a freguesia: os primeiros cachos são cortados ao som de concertinas, o mosto partilhado com vizinhos, a broa ainda quente passada de mão em mão. Durante a Quaresma, o Enterro do Bacalhau inverte o tom: rapazes mascarados simulam o funeral do peixe em cortejo satírico que remonta aos anos 1920, antecipando a abstinência pascal com humor irreverente. E na noite de 5 para 6 de janeiro, o Cantar dos Reis leva grupos aldeãos de porta em porta, entoando Janeiras e recebendo bolinhos de mel e água-pé — tradição que se mantém viva com cerca de trinta participantes organizados em três grupos.
Leitão, chanfana e pastéis de avelã
A cozinha bairradina domina a mesa. O leitão assado em forno de lenha chega à mesa com a pele estaladiça, temperado com alho e louro, acompanhado de batatas fritas e salada de pepino. Nos dias frios, a chanfana — cabrito estufado em vinho tinto com colorau — aquece o corpo, enquanto a sopa de castanhas reconforta. A Carne Marinhoa DOP, criada nos campos de baixada, garante qualidade aos ensopados e grelhados. Entre os doces, os pastéis de Avelãs — folhados recheados com doce de ovos e avelã picada, cuja receita foi registada em 1968 por Maria dos Anjos Ferreira na padaria familiar — e os tijelos de gila, bolachas cozidas em lajes de barro, perpetuam receitas centenárias. Tudo harmoniza com os espumantes brutos e os tintos de baga da Região Demarcada da Bairrada, cuja adega cooperativa de Cantanhede fica a cinco quilómetros.
Ribeiras, moinhos e a Mata da Escarpa
A Rota dos Moinhos desenrola-se ao longo de seis quilómetros, ligando Avelãs de Cima a Avelãs de Caminho através de vales húmidos onde persistem amieiros e salgueiros. Dos sete moinhos de água identificados — Moinho do Ribeiro, Moinho do Cabeço, Moinho da Escarpa entre outros — apenas o Moinho do Arelho conserva a roda intacta, embora imóvel desde 1957 quando cessou a moagem por falta de trigo. A Mata da Escarpa, mancha de 45 hectares de pinhal-marítimo e eucaliptal, oferece refúgio a javalis e raposas, e os seus trilhos atraem ciclistas que procuram o frescor das árvores e os miradouros sobre a Bairrada. No extremo sul da freguesia, a 340 metros de altitude, o miradouro do Cruzeiro de Santo António permite avistar as serras do Caramulo e Buçaco num dia claro.
Ao cair da tarde, o fumo sobe das chaminés e espalha-se sobre os espigueiros, carregando o cheiro a lenha de carvalho e a chouriça no fumeiro. O sino toca novamente — não para assinalar a hora, mas para marcar a vida que aqui persiste, medida em vindimas, procissões e fornadas de pão.