Artigo completo sobre Sangalhos: onde a Baga define o ritmo da vida
Terra de vinhas centenárias e adegas familiares no coração da Bairrada, entre Anadia e Aveiro
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Quando o vento está na certa, cheira-se a mosto a três ruelas de distância. Não é perfume de boutique, é o vizinho a abrir a tampa do lagar e o vapor a sair como se a aldeia estivesse a fazer chá grande. Em Sangalhos o calendário não é o do Correio da Manhã: é o da vinha. Quando as folhas começam a amarelar, o pessoal já sabe que faltam semanas para o “bulício” – e o bulício são as vindimas, que ainda se fazem a meias entre a máquina e a mão de avós que não se fiam de facas eléctricas.
A aldeia cabe num maço de tabaco: 17 km², 65 m de altitude, nada que ligue o joelho a ninguém. O barro é vermelho, corta-se nos sapatos e agarra-se à alma – daí a Baga ter esse dente que morde a língua aos estrangeiros. Vinha, eucalipto, milho, vinha outra vez. As casas são baixas como quem se esconde do vento; muitas têm a porta da adega mesmo à beira-da-rua, por isso não estranhe se virmos um sr. de bata a tirar a rolha para um turista alemão e a oferecer um copo de plástico azul: é assim que se fazem os “negócios de vinhateiro”.
Há 3 835 almas escritas no papel, mas quem cá está garante que são menos: os jovens fugiram para a construção civil em Lisboa ou para o call center no Porto, e os que voltam trazem barba e projecto de “wine bar” no Instagram. Mesmo assim, ainda há compadres que jogam sueca no “Café Central” e se lembram do tempo em que se pisava o bagaço descalço – “era preciso álcool no sangue para não sentir o gelo da pedra”.
Comer por aqui é simples: se o forno está ligado, é sinal de festa. Leitão tem de ser, mas peça-se antes a Marinhoa – a vitela que nasce a 5 km, come erva a cantar e vai parar ao forno de lenha durante quatro horas. Não há molho secreto: é sal, alho, louro e paciência. Batata vai no mesmo tabuleiro, fica com gordura que até o pão agradece. Vinho? Um tinto da Baga que parece feio no copo, mas que depois de dois dedos já lhe diz a vida toda.
Para dormir há seis sítios – sim, contei –, mas chega. Ninguém vem a Sangalhos para festa de karaoke; vem para acordar com o cão a ladrar ao trator e para o caseiro dizer que o café está pronto “se quiser”. Caminhe-se ao fim do dia pela estrada de acesso à “Quinta do Encontro”: a luz é tão de cinema que até os corvos parecem pagos. Leve-se um casaco: quando o sol se põe atrás do Caramulo, o ar traz sempre um travo de vinhaço que faz arrepio.
E pronto, é isto. Sangalhos não é cidade, não é aldeia-museu: é um sítio que ainda resiste a ser postal. Se quiser multidões, fique em Aveiro que há barcos moliceiros com playlist no Spotify. Aqui o barco é a pipa, a música é o ranger da tampa do lagar e o guia sou eu – mas só até às seis, que depois há jantar e a sogra não perdoa quem chega tarde.