Artigo completo sobre Arouca e Burgo: onde o mosteiro comanda o vale
A união de duas freguesias moldadas pelo Mosteiro de Arouca e pela Serra da Freita, em Aveiro
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O sino bate no granito e vai abaixo pelo vale até se perder na Serra da Freita. São sete e meia da manhã, ainda há orvalho nas pedras do Mosteiro e o cinzento delas tem um tom de molho de couves que ficou muito tempo ao lume. Pela porta lateral do mosteiro cheira a ovos e açúcar queimado — é a pastelaria da Dona Rosa a fazer os doces de costume. A praça está deserta, só o café O Moinho já tem o seu primeiro cliente: o Sr. António, como todos os dias, o mesmo copo de meio-e-meio e o mesmo jornal. É assim que Arouca acorda: sem pressa, com a lentidão de quem sabe que o dia vai ser longo.
Pedra sobre pedra, século sobre século
O Mosteiro é o que é: ali está desde que os nossos avós tinham avós. Não é só grande — é que faz com que tudo o resto pareça pequeno. A D. Mafalda, que se vinha calar para aqui há oitocentos anos, ainda é motivo para a procissão da aldeia ir até à porta principal quando há festa. Dentro, o retábulo barroco parece ouro de verdade às nove da manhã, quando o sol entra pela janela lateral e faz aquela luz que até os turistas alemães param de fotografar.
Do lado de fora, a igreja paroquial é uma irmã mais nova que tentou copiar o estilo e não conseguiu. Já a do Burgo é outra conversa: é mais pequena, sim, mas tem a vantagem de estar no sítio certo para quem quer ver o vale sem ter de pagar estacionamento. Em 2013 juntaram-nos a todos na mesma freguesia, mas quem é de Burgo continua a dizer que vai "à vila" quando desce até aqui.
Onde a serra desce até ao prato
A carne Arouquesa é como é: se a pedem mal passada, o empregado olha para o cliente como quem vê um estrangeiro a pedir água no vinho. O bicho é aquelas vacas pequenas que só se sustentam nestas pedras — a carne tem um travo a terra que não precisa de molho nenhum. O cabrito da Gralheira, quando é de chanfana, desfaz-se no garfo e o molho serve-se com pão para não ir para o lixo. Os rojões são os rojões: toucinho, alho e vinho. Servem-se com sopa de nabos que é tão espessa que o garfo fica de pé.
O mel é do nosso quintal — escuro, quase preto, do tipo que não deixa mentir. Nas pastelerias ainda se faz o toucinho-do-céu como se fazia quando a minha avó tinha dentes de verdade. A receita vem do mosteiro, dizem. O que sei é que a Dona Rosa nunca revela as quantidades certas e que os doces acabam sempre antes das três da tarde.
Procissões, pedras que parem e trilhos de xisto
Em Maio é a festa da Mafalda. A vila transforma-se numa feira de vinhos e bifanas, com música que se ouve até ao Burgo. Os anos bons, há touros à corda na praça de toiros. Os anos maus, chove e fazemos a mesma festa no arraial coberto, com os pés na lama e a garrafa a passar de mão em mão.
As pedras parideiras são aquelas pedras que parecem grávidas — é o que dizem os geólogos. O trilho é curto, dá para ir e vir antes do almoço. O do Mosteiro é para os preguiçosos: dá uma volta à vila, sobe até ao cemitério e desce outra vez. Quem quiser mais, vai até à Freita. Lá em cima, no inverno, a neve faz o serviço de guarda-florestal: só passa quem quer mesmo passar.
O peso doce da cera e do granito
Ao fim da tarde, quando o sol se põe atrás do Mosteiro e as pedras ficam douradas como as filigranas da minha mãe, há um cheiro que se mistura: é o pão a sair do forno da padaria, é o vinho tinto que o Zé Manel já está a servir no tasco, são os doces que a Dona Rosa guarda para o dia seguinte. É este cheiro que faz com que quem vai embora volte. Não é saudade — é que o estômago tem memória mais forte que o coração.