Artigo completo sobre Mansores: pedra, sinos e memória nas encostas de Arouca
Conheça Mansores, freguesia de Arouca com mil anos de história, onde a igreja de Santa Cristina e capelas centenárias resistem entre vales florestados e tr
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A torre sineira da igreja de Santa Cristina ergue-se acima dos telhados de Mansores, recortada contra o verde escuro dos eucaliptais que sobem pelas encostas. Ao fundo, o murmúrio constante da ribeira de Mansores — afluente do Arda — mistura-se com o eco espaçado dos sinos: dois toques graves que atravessam os 318 metros de altitude e se perdem entre os vales. É meio da manhã e o granito ainda guarda o frio da noite; nas ruelas, a terra mole dos caminhos de carro cheira a folhas de carvalho em decomposição.
Reconstruir sobre as ruínas
A igreja matriz nasceu do terramoto de 1858. A ermida medieval de Santa Cristina, documentada desde 1320, ruíra de vez. Entre 1861 e 1876, o mestre pedreiro António Ferreira de Fermêdo liderou a reconstrução — pedra extraída na própria serra, cal feita no forno comunitário das Agras, 80 centímetros de espessura nas paredes para aguentar o Inverno. A torre, acabada em 1874, recebeu o sino fundido em 1882 na fundição Felgueiras de Penafiel: 180 quilos, tom em lá bemol, ainda hoje badalado por António Marques, o mesmo campineiro desde 1978.
Ao lado, a Capela de Nossa Senhora do Rosário não é "discreta" — é inevitável. Branca com cantarias de granito, foi mandada erguer em 1890 por Joaquim Moreira das Agras depois de regressar do Brasil com dinheiro do café. A ousadia está no frontão curvo, raro na arquitectura popular da região. Restaurada em 2008 pela Câmara de Arouca, perdeu o reboco original mas ganhou uma porta de madeira de carvalho lavada a óleo de linhaça — repete-se de três em três anos, conta o sacristão.
Mansores aparece em foral de 1059 como "Mansores de Urgueira", terras do conde Mumadona Dias. O nome deriva de mansus, mas o plural é posterior: até 1758 constava apenas "Mansor". Em 1855, a reforma administrativa de Passos Manuel transferiu-a de Fermêdo para Arouca — o protesto dos fregueses, arquivado no Distrito de Aveiro, reclamava "mais de sete léguas de caminho escarpado" até à nova sede.
Devoção mariana e emigração brasileira
A procissão de Santa Mafalda faz-se desde 1963, quando o pároco Manuel Pinto — natural de Travanca — trouxe a imagem de cartão-piedade de Lisboa. Sai às 9h do domingo mais próximo de 2 de Maio: vai até ao cruzeiro de 1870, vira à esquerda na rua da Igreja, desce até à ponte de pedra sobre a ribeira e sobe de novo. São 450 metros, percorridos em 22 minutos exactos, cronometrados pela banda filarmónica de Fermêdo que repete o mesmo Hino de Santa Mafalda composto em 1954.
Na Rua Coronel Oscar Porto, no Jardim das Acácias em São Paulo, existe mesmo uma "Rua Mansores". Foi aberta em 1967 por Joaquim Augusto Marques, nascido na Casa do Penedo em 1921, que pagou 12 contos de réis pelo loteamento. O dinheiro que voltou construiu as casas de alvenaria visível nas fotografias de 1970: deixaram de ser telheiros de madeira com muros de pedra seca. As quatro escolas primárias — Serra da Vila, Agras, Forcada e Póvoa — chegaram a ter 180 alunos no ano lectivo de 1969/70. A da Serra da Vila fechou em 2009; hoje é depósito de tractores, mas ainda se lê no portão "Escola Primária n.º 7 - 1963".
Território do Geoparque Arouca
Mansores ocupa 1407 hectares, mas só 18% são aráveis. O resto é mata e pastagem, divididos em baldios desde 1934. O eucalipto chegou em 1962, plantado pela Celbi para abastecer a fábrica de Figueira da Foz; ocupava 340 hectares em 1990, hoje são 220 depois dos fogos de 2005 e 2017. A castanha é outra história: os 80 castanheiros centenários da Serra da Vila produziam 15 toneladas por ano nos anos 80; agora são 4, vendidas directamente à fábrica de Cacia que compra a 1,20 €/kg.
O PR4 "Trilho de Mansores" tem 7,3 km, desnível de 280 metros e demora 2h30. Passa pela mina de antimonite abandonada em 1953, onde 28 homens extraíram 450 toneladas de estibnite entre 1942 e 1951, vendida à Alemanha para pigmentos. Hoje só restam a boca da mina tapada com grades e uma pilha de escórias que ainda brilham em dias de sol.
À mesa, o cabrito da Gralheira é mesmo de Mansores: 300 criadores no concelho, 12 na freguesia. José Manuel Pereira, na Quinta do Ribeiro, abate 120 cabritos por ano, vendidos directamente às tasquinhas a 9 €/kg. A receita é a de sempre: cabrito desmanchado ao meio-dia, temperado com colorau, alho e louro, vai ao forno de lenha às 4 da manhã e só se serve às 12h30 — tem de desmanchar no garfo, senão não está no ponto. Acompanh-se com batatas castanhas da terra, as mesmas que a mãe dele guardava em silos de madeira sob a lareia.
Quando a luz começa a cair, o sino toca às sete badaladas. São três para a Ave-Maria, três para os defuntos e uma para os vivos — regra que o campineiro aprendeu com o pai. O som leva 11 segundos a chegar ao cruzeiro das Agras e volta em eco pela encosta do Viso. Nesse intervalo, Mansores fica suspensa: não há carros, só o cão do Ferrugento a ladrar na aldeia abaixo. Depois o silêncio volta a pesar, como sempre pesou.