Artigo completo sobre Moldes: onde o sino marca o tempo nas serras de Arouca
A freguesia serrana integrada no Geopark UNESCO, entre vales do Paiva e devoção secular
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O sino da Igreja de São João Baptista bate cinco vezes, grave e lento, e o som espalha-se pelas casinhas de pedra que sobem a encosta. É maio, e o cheiro a lenha mistura-se com o aroma das flores de giestas que explodem em amarelo nos muros de xisto. Nas ruas estreitas de Moldes, o silêncio só é interrompido pelo ladrar distante de um cão e pelo murmúrio do ribeiro da Aldeia que desce, frio e transparente, em direção ao vale do Paiva.
Estamos a 377 metros de altitude, numa freguesia que se estende por 2800 hectares onde a densidade populacional mal ultrapassa os 40 habitantes por quilómetro quadrado. Aqui, as casas ainda guardam a arquitectura de casais tradicionais, com paredes grossas de granito e xisto, portas baixas de madeira gretada pelo tempo, espigueiros de ripas abertas ao vento. Moldes faz parte do Geopark Arouca, classificado pela UNESCO, e a paisagem reflecte essa importância geológica: manchas de carvalhal e pinhal, matos rasteiros, pastagens onde o gado Arouquês pasta devagar, indiferente ao vento que sobe do vale.
A devoção que atravessa os séculos
A ligação ao Mosteiro de Arouca moldou — literalmente — a identidade de Moldes desde o século XIII. A Rainha Santa Mafalda, figura central na história do mosteiro, é aqui venerada com uma devoção que poucos lugares conseguem manter com tanta intensidade. Em maio, a Festa da Rainha Santa Mafalda transforma a freguesia: procissões sobem as ruas calcetadas, os andores avançam ao ritmo dos cânticos, e a comunidade inteira se reúne em torno da memória de uma santa que ainda hoje organiza o calendário local. A Igreja Paroquial de São João Baptista, de traça barroca, ganha então um protagonismo que a arquitectura sempre lhe reservou — altar dourado, talha trabalhada, o cheiro a cera e a incenso que impregna a nave.
Mas não é só em maio que Moldes celebra. No verão, a Capela da Senhora da Laje enche-se de romeiros que sobem a pé, descalços alguns, para a missa campal seguida de arraial popular. A Festa em Honra de Nossa Senhora da Mó, também estival, mantém vivas as tradições musicais e gastronómicas — as mesas enchem-se de enchidos, papas de sarrabulho, arroz de cabidela, tudo regado a vinho da região.
Sabores de altitude
A gastronomia aqui não é ornamento turístico; é a expressão directa do território. O Cabrito da Gralheira IGP, assado em forno a lenha, chega à mesa com a pele estaladiça, a carne macia que se desfia com o garfo, o aroma intenso a alecrim e alho. A Carne Arouquesa DOP, de bovinos criados em pastagens de altitude, é servida em grelhados e assados que mantêm a textura tenra e o sabor pronunciado. Nos dias frios, a chanfana aquece o corpo — carne de cabra cozinhada lentamente em vinho tinto, servida fumegante em panela de barro. Os doces conventuais, herança do Mosteiro de Arouca, fecham as refeições com a doçura concentrada dos ovos e do açúcar.
Caminhar entre ribeiros e pontes
Os trilhos pedestres que partem de Moldes são discretos, pouco sinalizados, mas recompensam quem os percorre. Ligam aldeias e lugarejos através de caminhos antigos, atravessam riveiros por pontes de pedra construídas há séculos — arcos simples, sem argamassa, apenas pedras encaixadas com precisão de relojoeiro. A vegetação muda consoante a altitude: mais abaixo, os carvalhos dominam; mais acima, os pinheiros e os matos baixos resistem ao vento. O vale do Paiva, próximo, oferece paisagens de grande beleza cénica, mas aqui, em Moldes, a beleza é mais íntima, feita de detalhes — o musgo verde-escuro nas pedras húmidas, o reflexo do céu na água parada de uma levada, o voo rasante de uma águia-de-asa-redonda.
Quando a tarde cai e a luz rasante ilumina as fachadas de granito, Moldes revela-se naquilo que sempre foi: uma freguesia que vive devagar, onde os gestos quotidianos — acender a lareira, cuidar dos animais, preparar o pão — resistem ao ritmo acelerado do mundo lá fora. O sino de São João Baptista volta a bater, e o eco demora a morrer entre as serras.