Artigo completo sobre Várzea: vale fértil entre montes de Arouca
Igreja barroca, ponte medieval e romarias animam a mais pequena freguesia de Arouca
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O sino da igreja soa às sete e meia — primeiro o badalo gordo, depois o miúdo — e rebenta nos lameiros como quem avisa que o pão já está na padaria. Várzea é o rectângulo verde que sobra no mapa de Arouca: 179 hectares, 534 habitantes e meia dúzia de cães que conhecem os carros todos. Aqui o rio chama-se Talaminho e serve de relógio: quando sobe é segunda, quando desce é sexta. O resto do tempo arrasta-se manso, regando couves e a memória de um moinho que há vinte anos deixou de moer para se tornar casa de férias de um português-de-França.
Igreja, ossos e promessas
A Matriz é branca por fora, dourada por dentro. No retábulo, anjos gordos fazem flexões de braço sobre a Santa Mafalda — ou o que resta dela, que não é muito: um pedaço de osso trazido de Guimarães numa caixinha de feltro. Dizem que quem lhe toca acalma as dores de garganta; a verdade é que acalma as dúvidas da mulher da limpeza, que nunca falha à missa das nove. Os azulejos estão a cair — não por falta de fé, mas por infiltração de água e de tempo. A porta lateral range como um homem velho a levantar-se; é por ali que se entra para fugir ao sol ou para acender uma vela ao defunto que ainda não morreu.
A ponte medieval serve para duas coisas: passar as vacas e lembrar aos netos que o avô já carregou钢琴 de mão quando ainda não havia estrada. As pedras estão polidas do tempo e dos ténis da Nike dos miúdos que a usam de trampolim para o Talaminho. Em baixo, as trutas fazem-se de mortas até ao primeiro pão que cai.
Festas, leilões e o cheiro a cabrito
Maio é mês de levantar dinheiro à porta da igreja. O leilão de bolos começa depois da procissão: o padre bate no microfone, o Zé do Café grita “cinco euros!” e a mulher do Toninho responde “dez!” até o pão-de-ló ir parar a quem menos precisa. O dinheiro serve o telhado — ou o vinho, dependente da comissão.
No domingo antes das aulas começarem, sobe-se à Laje. A capela é miúda, mal cabem as cadeiras, mas a mata à volta é grande o suficiente para esconder as garrafas de aguardente. Cabrito assa em ferro-velho, o fumo sobe direito, o padre abençoa o gado e o miúdo mais novo adormece no capô do carro. Quem se lembra de levar guardanapo leva também nódoas na camisa — o colorau não perdoa.
O que se come (e o que se bebe para esquecer)
O cabrito da Gralheira não precisa de mais nada: sal, alho e uma lenha de carvalho que faça crepitar a pele. Serve-se num prato grande, partido com as mãos — não há faca que resista ao osso estalado. A chanfana é para os dias de neblim: carne Arouquesa enterrada em vinho tinto, cebola em camadas e um colorau que faz chorar os olhos e rir o estômago. Quando acaba o pão, usa-se a tigela: não é falta de educação, é aproveitar o molho.
O mel é dos soutos da vizinha, o queijo é da Cabreira, a aguardente é caseira — três golitos e falas francês. Depois do jantar, o avô vai ao fumeiro buscar um chouriço de vinho: corta-se ao meio, espeta-se num garfo e roda-se sobre o lume da salamandra. A criança fica com a pele, o adulto com o resto. Para a sobremesa, toucinho-do-céu que se desfaz na boca e engorda na consciência.
Caminhar, suar e encontrar a aldeia inteira no miradouro
O trilho é curto — cinco quilómetros, mas sobe o suficiente para a mulher do lugar dizer que “faz bem às varizes”. Começa na ponte, passa pelo lameiro onde o Charuto (o burro, não o cigano) olha para ti como quem pergunta se trazes açúcar no bolso. Depois sobe-se entre castanheiros: em Outubro, os ouriços estalam debaixo das sapatilhas; em Julho, a sombra é tão grossa que até o telemóvel perde rede.
No miradouro do Pilar, o vale aparece inteiro: a igreja branca, o rio prateado, as casas de telhado a quatro águas e o monte de Arouca lá ao fundo, riscado como dente de serra. Senta-se no banco de madeira, tira-se o casaco para enxugar a testa e, se não tiveres cuidado, o velho do lugar senta-se ao lado e começa a contar-te a vida — começa pela emigração, passa pela guerra colonial e acaba na neta que estuda enfermagem no Porto. Quando o sol se põe, desce-se depressa: às nove há jantar na tasca, e o coelho à caçador acaba quando acaba.
Várzea não tem monumentos que façam fila, nem lojas de recordações. Tem é um silêncio que se ouve, um cheiro a fumeiro que se segue, e um sino que às sete e meia te lembra que ainda há pão quente. Se passares por lá, desce do carro. Respira. E leva guardanpo: o colorau não perdoa.