Artigo completo sobre Santa Joana: onde o vento varre a planície de sal
Freguesia milenar de Aveiro com lenda de mártir, igreja setecentista e paisagem aberta à ria
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O cheiro chega antes da imagem. É aquele perfume que te agarra ao casaco como um gato a um delgado — um travo de lodo e junco, vegetal e húmido, que sobe dos caniçais do Canal de São Roque e se mistura com o aroma adocicado das broas de milho a arrefecer num parapeito qualquer. Caminha-se por ruas de casario baixo, paredes caiadas ou de granito oitocentista escurecido pela humidade atlântica, e o som dominante não é o trânsito — é o vento. Um vento raso, sem obstáculos, que varre a planície costeira a pouco mais de quarenta metros de altitude — nem sequer dá para a torre da igreja — e faz oscilar as canas ao longo das valas de rega, como se fossem miúdos a fazer ondas num estádio de futebol. Estamos em Santa Joana, uma das freguesias mais antigas do concelho de Aveiro, documentada desde 1258, e a única que ostenta um nome feminino como padroeira.
A lenda inscrita na pedra
A história fundadora é sombria e directa: uma jovem chamada Joana terá sido assassinada neste lugar por recusar casar-se com um nobre. O culto à mártir popularizou-se, deu nome à igreja paroquial e, por extensão, à própria freguesia. Dentro da Igreja Paroquial de Santa Joana — templo setecentista de nave ampla — conserva-se ainda um antigo tronco de pedra onde, segundo a tradição, a lendária Joana teria sido morta. É como ter um livro aberto na estante, só que em vez de páginas tem lajes frias — a peça está ali, discreta, quase anónima entre o retábulo barroco dourado e os painéis de azulejo do século XVIII que revestem as paredes interiores. A luz entra filtrada por vidros estreitos e bate nos azuis e amarelos da cerâmica, projectando reflexos trémulos sobre o chão de laje gasta por séculos de procissões — tanto que parece que o chão está a respirar. No adro, cruzeiros de pedra marcam o espaço com a verticalidade que falta à paisagem circundante — tudo aqui é horizontal, raso, aberto ao céu largo do litoral, como se as casas estivessem a jogar à macaca com o mar.
Da Idade Moderna resta uma ausência eloquente: um pequeno mosteiro de frades agostinhos que o Terramoto de 1755 reduziu a vestígios de muros, ainda legíveis no perímetro do adro. Pedras soltas, colonizadas por líquenes e musgo, que se confundem com o muro do cemitério e que só um olhar atento — ou quem foi lá brincar de esconde-esconde na infância — distingue do resto.
Sal, enguia e massa de ovos
Santa Joana foi durante séculos terra de cerealicultura e criação de gado, mas a Ria sempre ditou o vocabulário gastronómico. A caldeirada de enguias — cortadas em postas grossas, cozinhadas com batata, cebola e pimentão num refogado lento — é o prato que melhor traduz a relação entre a freguesia e a água salobra que a limita a norte. É daquelas comidas que te aquecem o estômago como um cachecol de lã — ao lado, o ensopado de enguias com pão de milho absorve o caldo até a côdea amolecer, e o arroz de marisco traz os sabores do estuário para dentro de casa como quem traz o gato dentro de casa na primeira chuvada. Em terra firme, a chanfana de bode e os rojões à moda de Aveiro carregam o peso calórico que o trabalho nos campos exigia — era o combustível de quem passava o dia agachado a arrancar ervas daninhas com as unhas.
Mas o produto que projecta o nome de Aveiro — e, por extensão, de Santa Joana — para lá das fronteiras do distrito são os Ovos Moles de Aveiro IGP. Na Pastelaria Rossio, as formas de hóstia recheadas com a massa amarela e densa de gema e açúcar alinham-se em tabuleiros como pequenas esculturas: conchas, peixes, barris. É a única pastelaria onde a fila é feita por tardes inteiras — até os netos dos fundadores ainda vêm ali buscar os doces para a sogra, como se fosse um ritual de passagem. O sabor é intenso, quase excessivo, como um abraço apertado da avó — pede o equilíbrio de um vinho verde branco da região de Bairrada ou, para quem prefira bolhas, um espumante local. As bolachas de erva-doce e as broas de abóbora completam uma mesa onde o doce e o rústico coabitam sem cerimónia, como primos que só se encontram no casamento da tia.
Entre caniçais, a caminho de Santiago
O Caminho da Costa, variante litoral do Caminho de Santiago, atravessa a freguesia por trilhos de terra batida que serpenteiam entre caniçais e sapal — é como andar num tapete verde que alguém esqueceu de aspirar. O percurso liga Santa Joana a Vilarinha e ao cais de São Jacinto, e quem o faz de manhã cedo cruza uma paisagem em contraluz: a água parada dos esteiros reflecte o céu ainda rosado, as garças pousam imóveis nos bancos de lodo como senhoras à espera de autocarro, e o silêncio só é quebrado pelo chapinhar de um moliceiro ao longe — um som que faz lembrar o barulho de alguém a molhar o pé numa bacia. O trilho completo até São Jacinto e regresso soma cerca de doze quilómetros — distância suficiente para sentir a transição da planície agrícola para o pinhal e, finalmente, para as dunas da Reserva Natural das Dunas de São Jacinto, a dez quilómetros, onde a areia branca e as praias selvagens substituem o verde dos campos.
A ciclovia da Ria oferece uma alternativa sobre duas rodas: partindo de Aveiro, atravessa a freguesia em direcção à praia da Barra, e o piso plano torna o passeio acessível a qualquer condição física — até ao teu avô que diz que "bicicleta é coisa de miúdos". Junto ao Canal de São Roque, há quem pare para observar as aves limícolas ou simplesmente para ficar parado diante da extensão de água e vegetação, sem horizonte vertical que interrompa o olhar — é o sítio onde até o telemóvel perde sinal, e onde te apercebes que o silêncio também tem cheiro a maresia.
O calendário que marca o corpo
A romaria de Nossa Senhora da Saúde, no primeiro domingo de maio, é o momento em que Santa Joana se adensa — parece que toda a gente decidiu ir ao café ao mesmo tempo. A procissão sai da Capela de Nossa Senhora da Saúde — pequeno templo de campo, despojado, de paredes brancas — e percorre ruas ornamentadas com colchas nas varandas como se fossem toalhas de mesa de domingo. A alvorada acorda a freguesia com foguetes antes do amanhecer — é o alarme que ninguém programa mas toda a gente ouve — e o arraial estende-se pela tarde com o cheiro a farturas e sardinha assada que se agarra à roupa como perfume de ex-namorado. Em agosto, a procissão de Nossa Senhora da Assunção, a quinze, repete o ritual com o calor seco do verão a colar as camisas às costas como papel de forrar gavetas. Na noite de Natal, a missa cantada inclui cantares ao desafio que ecoam na nave da igreja com uma acústica que o retábulo dourado parece amplificar — até o padre parece ter mais voz. E na Páscoa, as folaradas mantêm viva a tradição de partilhar pão doce entre vizinhos — gesto simples que dispensa explicação e que, numa freguesia de pouco mais de oito mil habitantes distribuídos por quase seis quilómetros quadrados, ainda funciona porque toda a gente se conhece — é o WhatsApp de antigamente, só que com farinha e açúcar.
O tronco de pedra e o vento
Ao final da tarde, quando a luz rasante alonga as sombras dos cruzeiros sobre a calçada do adro, a Igreja Paroquial fecha as portas com um rangido surdo de madeira velha — aquele som que faz lembrar a avó a queixar-se das costas. Lá dentro fica o tronco de pedra, frio ao toque mesmo em julho, guardando uma história que ninguém pode confirmar mas que todos repetem — é o nosso episódio favorito de uma novela que nunca acaba. Cá fora, o vento da Ria recomeça, trazendo aquele cheiro inconfundível de lodo e junco que é, antes de qualquer monumento ou lenda, a primeira e última coisa que Santa Joana oferece a quem chega — e a marca que leva quem parte, impregnada na roupa e na memória das narinas, como um postal que não precisa de selo.