Artigo completo sobre São Jacinto: península entre a Ria e o Atlântico
A única freguesia de Aveiro com praia oceânica, acessível por ferry e rodeada de dunas protegidas
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O som chega antes da vista: o bater do Atlântico, como quem bate à porta antes de entrar. São Jacinto é assim — um café que ainda ninguém descobriu, onde o empregado já nos conhece pelo nome mas nunca se senta à mesa. A estrada torce entre pinheiros até a areia aparecer, e aí percebemos que estamos num lugar que não é bem terra firme: é uma espécie de sandwich de água, com o mar num lado, a ria no outro, e nós ao meio a segurar os cornos do papel.
A única freguesia oceânica de Aveiro
758 almas — menos que o público de uma final de taça no São Jacinto FC, clube que aqui existe mesmo sem divisão. Para cá chegar, o ferry eléctrico demora o mesmo que um cigarro bem tragado: 50 minutos a cortar a ria como quem corta um ovos moles ao meio. Quem vem de carro pela N327 sente o mesmo que quem vai visitar a sogra: parece longe, mas chegamos sempre. A ermida de São Jacinto está aqui desde o século XIII, o que nestas bandas é o mesmo que dizer «desde sempre». O santo é raro em Portugal, mas aqui aguenta-se ao vento como um pescador aguenta a ressaca: com fé e com alguma paciência.
Entre dunas e passadiços
A reserva natural é aquele primo que vai ao dentista de dois em dois anos: 70 hectares protegidos como se a areia fosse ouro. Os passadiços rangem sob os pés como o soalho da tasca do Zé, e lá em baixo a praia estende-se desinquieta — surfistas procuram ondas que não aparecem no Instagram. Do lado da ria, a água é tão mansa que até a minha avó lá ia de bóia. Entre os caniços, a Pateira — que não é doce nem empada, é um charco que nasceu de um incêndio — acolhe avis que se deixam fotografar desde que não lhes peçamos autógrafo.
Tradição adocicada
Ovos moles são a moeda local: prova-se um, leva-se a caixinha. Aqui não há restaurante com estrelas, mas há robalo que ontem ainda nadava e enguia que sabe a mar e a lenha de amendoeira. Quem procura «prato típico de São Jacinto» fica com a mesma cara de quem pede um café descafeinado depois das três da manhã: não existe, mas arranja-se.
Memória industrial no horizonte
Já foi base aérea, já foi porto de bacalhau — hoje é um armazém vazio onde se fala em energia eólica como quem fala em política: todos dizem, ninguém acredita. O cais continua lá, com o café a servir imperiais que gelam mais depressa que conversa de pescador. A EuroVelo 1 passa por cá, e os ciclistas pedalam como quem vai buscar o pão: de costas curvas e olhar de quem ainda não viu o Preço certo. O Caminho de Santiago também cá dá um pulo, acrescentando peregrinos ao rol de quem aqui chega para não ficar.
Ao fim do dia, quando o sol se deita na ria como quem se deita no sofá após o jantar, resta o som do mar: aquele vizinho que nunca fecha a janela. São Jacinto é isto: um sítio onde o tempo não passa, apenas arrefece.