Artigo completo sobre Santa Maria de Sardoura: vinhas em socalco e vales
Freguesia vinícola entre colinas e o Douro, com origem medieval e forte tradição vítica
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O ribeiro desenha voltas entre colinas, como se tentasse atrasar o encontro com o Douro. O nome vem daí — Sardoura, do árabe "andar à roda" — e ainda hoje se sente essa cadência circular no modo como os vales se encaixam uns nos outros, com vinhas dispostas em socalcos irregulares e caminhos de terra batida que descem até ao fundo dos ribeiros. A quatro quilómetros de Castelo de Paiva, entre Entre-os-Rios e Sobrado, esta freguesia estende-se por pouco mais de mil hectares na margem esquerda do Douro, a uma altitude média de 294 metros. Aqui, o território não se impõe — oferece-se, num desenho suave de colinas e vales onde a agricultura e a vinha ocupam a maior parte da paisagem.
Duas comunidades, um nome
A origem remonta ao século XIII, quando Santa Maria e Sardoura se uniram numa só freguesia. Durante séculos manteve-se como centro rural, com a actividade agrícola e vinícola a moldar o calendário e os modos de vida. Em 2003 foi elevada a vila, reconhecimento que chegou num momento em que o interior norte começava a sentir o peso da desertificação. Hoje, com 2274 habitantes e uma densidade de 226 pessoas por quilómetro quadrado, Santa Maria de Sardoura resiste à tendência: a taxa de participação eleitoral, que atingiu 79,04% em 2021, é uma das mais altas do país, sinal de que a comunidade ainda se reconhece e mobiliza.
O peso do vinho verde
Nos vales de S. Gens, S. Paúl e Vale de Sá, as vinhas crescem em encostas viradas ao rio. A produção de vinho verde é aqui o eixo da economia rural e da identidade local. Todos os anos, no Largo do Fundo Adro, a Festa do Vinho, Gastronomia e Atividades reúne milhares de visitantes durante três dias. Quarenta expositores locais ocupam o largo, entre produtores de vinho, artesãos e vendedores de doçaria tradicional. O som das concertinas mistura-se com o burburinho dos bailaricos, e o cheiro a assados e a pão quente sobe das barracas montadas à volta da igreja. É neste certame que os produtores apresentam as colheitas recentes, num ritual que celebra tanto o trabalho nas vinhas como a continuidade de uma tradição que remonta à fundação da freguesia.
A Carne Arouquesa DOP e o Mel das Terras Altas do Minho DOP também marcam presença nas mesas locais, embora seja o vinho verde o verdadeiro protagonista. A doçaria tradicional, de receitas transmitidas entre gerações, surge nas festas como complemento natural aos pratos de carne e aos rojões que ainda se cozinham nas casas mais antigas.
Um centro social que emprega
O Centro Social de Santa Maria de Sardoura emprega 130 pessoas, um número expressivo para uma freguesia desta dimensão. Mais do que uma resposta assistencial, desenvolve o Centro de Reabilitação Profissional, projecto único no distrito de Aveiro. Este trabalho de integração e apoio social tem impacto directo na vida da comunidade, funcionando como contrapeso à perda demográfica: a freguesia conta com 481 idosos e 280 jovens, um desequilíbrio geracional que se sente em muitas localidades do interior.
Percursos e ritmos
Percorrer os vales que descem até ao Douro é entrar num território de pequenas localidades onde o ritmo ainda responde ao calendário agrícola. As vinhas ocupam as encostas, intercaladas com manchas florestais e pequenas hortas familiares. Não há áreas protegidas classificadas, mas a paisagem tranquila e o fácil acesso fazem de Santa Maria de Sardoura um lugar de passagem natural para quem explora a margem esquerda do Douro. O Largo do Fundo Adro, centro das iniciativas culturais, é também ponto de partida para caminhadas pelos vales, onde se ouve o murmúrio dos ribeiros e se sente o frio húmido que sobe da água nas manhãs de Inverno.
Ao fim da tarde, quando o sol rasante ilumina as videiras e o vento traz o cheiro a terra molhada, percebe-se porque é que o ribeiro insiste em dar voltas antes de se entregar ao rio: há aqui uma lentidão deliberada, uma recusa em acelerar o que a paisagem pede para ser saboreado devagar.