Artigo completo sobre São Martinho de Sardoura: Cobre, Vinhas e Douro
São Martinho de Sardoura em Castelo de Paiva preserva a arte do cobre desde 1940, igrejas centenárias e vistas privilegiadas sobre o Douro e Rio Paiva.
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O som do martelo no cobre já não se ouve como antigamente, mas na oficina do Sr. Arménio ainda se pode sentir o cheiro acre do metal aquecido. São folhas que nascem lisas e ganham forma de panela, de alguidar, de tachinha para o arroz de lampreia — peças que nenhum turista compra, mas que os habitantes de São Martinho de Sardoura ainda usam porque "servem melhor que essas de inox". A freguesia cabe toda num descanso de pernas — 431 hectares onde 1849 pessoas se conhecem de nome, sobrenome e apelido — mas guarda entre si mais história que muita cidade grande.
Duas igrejas, duas eras
A Igreja Primitiva encolheu-se com o tempo. O que era colosal para quem vinha a cavalo hoje cabe numa fotografia, mas a pedra ainda guarda o cheiro a cera derretida e a incenso antigo. Os netos dos que aqui batizaram os pais ainda vêm à missa ao domingo, mas agora sentam-se nas cadeiras de plástico que o padre comprou no Intermarché. A cinquenta metros, a igreja nova parece uma nave espacial caída no meio do adro — toda de betão e vidro, onde a luz entra de raspão e faz os velhos piscar os olhos. Entre uma e outra, o tempo não passou: apenas se sentou no banco de jardim a descansar.
O Douro visto de cima
Do Miradouro de Catapeixe vê-se o rio como ele é — um fio de prata que se parte quando o sol bate de frente. Mas o que ninguém diz é que aqui o vento traz cheiro a silvas e a urze, e que em abril as amendoeiras em flor fazem o ar parecer doce. Os netos do Sr. Joaquim vêm aqui fumar o cigarro escondido da avó, sentados no mesmo banco onde ele próprio cortou o dedo a fazer-lhe uma promessa de amor em 1973. A paisagem é a mesma, só os barcos mudaram — agora são todos de turistas que pagam 15 euros para ver o que ele vê todos os dias de graça.
Sabores que falam da terra
A Carne Arouquesa não é nobre no prato — é generosa. Vem em postas grossas que o Sr. António na tasquinha serve com batatas fritas cortadas à faca e um murro de vinho branco que ele mesmo faz na adeira de trás de casa. O cabrito não é para qualquer dia — é para quando a neta faz anos ou quando o filho vem de França. Aí sim, o cheiro a alecrim e a alho percorre a rua toda e as vizinhas já sabem que há festa. O mel do Sr. Albano é tão escuro que parece noite num pires — ele diz que é porque as abelhas bebem o eucalipto das serras, mas ninguém acredita numa palavra.
Rio Sardoura, remanso quotidiano
O Sardoura é assim: de inverno leva tudo, de verão não leva nada. As crianças aprenderam a nadar nas poças que o pai escavava com a pá, e as mães lavavam a roupa nas pedras onde agora os alemães fazem paddle. No dia de São João, quando a câmara põe os concertos e as luzes, os velhos lembram-se do tempo em que a festa era na aldeia — com sardinhas que se compravam ao pescador e o vinho que se bebia directamente da talha. Agora há cadeiras de plástico e seguranças, mas o fogo ainda queima no mesmo sítio onde as avós queimavam os ossos do porco.
Nas Virtudes, a capela de Santa Ana está mesmo como o Sr. Mário a deixou quando foi para o Brasil em 1962 — com a porta entreaberta e o tecto a cair aos bocados. As roseiras que a mulher plantou ainda florescem todas as primaveras, como se não soubessem que já ninguém as vê. É a única coisa que continua viva no meio das pedras que se desfazem, e quando o vento passa parece que ainda se ouve a voz dela a chamar por ele que nunca mais voltou.