Artigo completo sobre Anta: onde o megalítico repousa junto ao milharal
Igreja setecentista, dólmen milenar e campos verdes a três quilómetros da costa de Espinho
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O milho já cresceu acima dos muros de pedra e o vento, que três quilómetros a oeste rasga a espuma na praia de Espinho, chega aqui manso e filtrado pelo cheiro verde das hortas. É manhã de Junho e o sino da Igreja de São Pedro solta dois toques graves que ressoam no planalto como se a pedra do adro os absorvesse e devolvesse com atraso. Anta acorda devagar — a freguesia que os vizinhos do litoral apelidaram «o interior de Espinho» e que, apesar de nunca tocar o mar, carrega nos campos vestígios de gente que aqui vivia milénios antes de alguém ter pensado em linhas de costa ou concelhos.
Pedras que precedem a memória
O topónimo diz quase tudo: «Anta» remete para os monumentos megalíticos que pontilham esta faixa do planalto costeiro. O dólmen do Monte do Padrão e a mamoa de Anta, ambos classificados como Imóvel de Interesse Público, são os testemunhos mais tangíveis de uma ocupação pré-histórica que a agricultura foi lentamente engolindo. O dólmen, aliás, sofreu um golpe prosaico em 1952, quando parte da estrutura foi desmontada para abrir um caminho de acesso a campos de cultivo. A pedra de cobertura — larga, cinzenta, com a superfície gretada por séculos de geada e sol — encontra-se hoje junto ao adro da igreja, onde serve de banco a quem espera pela missa ou simplesmente descansa ao fim da tarde. Sentar ali é apoiar as palmas numa laje que já estava polida quando Roma ainda não existia. O frio húmido do granito sobe pelos dedos e instala-se como uma espécie de aviso silencioso: este lugar é mais velho do que parece.
Talha dourada e um cruzeiro contra pragas
A Igreja Paroquial de São Pedro de Anta é setecentista, de nave única e frontão simples — nada que imponha distância. Lá dentro, porém, a luz que entra pelas janelas estreitas incide na talha dourada e nos painéis de azulejo do mesmo século, criando um brilho morno que contrasta com a penumbra da nave. O chão range sob os passos e o ar tem aquele odor particular das igrejas rurais portuguesas: cera derretida, madeira velha e um travo de incenso que nunca se dissipa completamente. No adro, o cruzeiro de 1786 ergue-se com uma inscrição que evoca a protecção contra pragas — pedido compreensível numa terra que vivia do que a terra dava. A poucos minutos a pé, na Quinta do Passal, a capela de São Silvestre cumpre outra função: é ponto de paragem reconhecido no Caminho de Santiago da Costa, a variante que atravessa Anta ao longo de quatro quilómetros entre muros de pedra cobertos de musgo e caminhos rurais onde o som dominante é o dos próprios passos na terra batida.
Sardinha na brasa e melindres em forma de concha
Quando chega o fim-de-semana mais próximo de 29 de Junho, Anta transforma-se. A Festa de São Pedro traz procissão com andas floridas, missa cantada, fogueiras na praça e um ritual que vale a pena testemunhar: o «leilão da sardinha», cujo produto reverte para as obras da igreja. O fumo das sardinhas assadas na brasa sobe denso e azulado, mistura-se com o cheiro a pinheiro das fogueiras e paira sobre o arraial como uma segunda cobertura. As crianças desfilam em carros alegóricos de papel criados nas oficinas escolares — a romaria júnior que dá à festa um tom familiar e despreocupado. Em anos pares, a «Festa do Emigrante» reúne os antaenses espalhados pelo mundo para um jantar convívio com rojões à moda de Espinho, caldeirada de enguias da Ria de Aveiro e concertos de música ligeira. À mesa, o vinho verde da região de Aveiro corre a copo, fresco e levemente agulhado. Entre os doces, os «melindres de Anta» — pequenos bolos de ovos e mel moldados em forma de concha — e os «beijinhos do São Pedro», de amêndoa e gila, vendidos pelas associações locais nas feiras, são o tipo de receita que não se encontra em livros mas passa de mão em mão.
Quatro quilómetros entre muros e juncais
O trilho do Caminho da Costa oferece a melhor forma de percorrer Anta a pé: sai-se da igreja de São Pedro, segue-se por veredas entre campos de milho e hortícolas, e desce-se até à ribeira de Silvares, curso de água temporário que nos meses de chuva alimenta uma zona húmida com juncais onde se avistam aves migratórias. A nascente, o terreno mantém-se a cerca de cinquenta metros de altitude — planalto suave, sem drama orográfico, mas com uma amplitude de horizonte que surpreende. Aos sábados, o centro de interpretação da Quinta do Passal abre portas para mostrar a tradição agrícola local e vender produtos biológicos. É ali que se percebe como Anta, com os seus 601 hectares e pouco menos de 5700 habitantes, mantém um equilíbrio precário entre o crescimento residencial acelerado desde o ano 2000 — novos loteamentos que a A29 tornou viáveis — e a persistência de quintas e casas de campo cuja arquitectura popular ainda resiste, com paredes caiadas e varandas de ferro forjado escurecido pelo sal que o vento traz do litoral.
O peso de uma laje no adro
Ao fim do dia, a esplanada do café «O Antanho» oferece petiscos regionais e um copo de vinho verde enquanto a luz rasante alonga as sombras dos muros de pedra. Mas a imagem que persiste não é essa. É a da laje do dólmen junto à igreja — aquela pedra de cobertura deslocada em 1952, agora banco de praça. O Zé Mário, que todos os dias vem ao adro depois do jantar, senta-se nela sem saber que apoia o corpo numa superfície com cinco mil anos. O granito aquece ao sol da tarde e arrefece depressa quando a sombra do cruzeiro o alcança. Esse contraste — calor e frio numa mesma pedra, num mesmo gesto de se sentar — é Anta inteira.