Artigo completo sobre Avanca: planície fértil entre memória e quotidiano
Conheça Avanca, freguesia de Estarreja em Aveiro, com 5732 habitantes, monumento de interesse público e paisagem plana marcada pela tradição agrícola.
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O ar aqui pesa. Não é o peso que sufoca, é o peso que acolhe - uma manta húmida que te envolve logo à porta de casa. Às sete da manhã, quando o nevoeiro se agarra aos campos de arroz, o cheiro a estiércol mistura-se com o pão a cozer na padaria da Praça. É este cheiro - terra molhada, fermento e fumo de eucalipto - que me diz que estou em Avanca.
Caminho pela Rua Principal (sim, chamamos mesmo assim) e vejo o Sr. Armindo a regar as alfaces. A mangueira deixa cair água em fio fino, cada gota parece demorar séculos a chegar ao solo. "Hoje vai ser um dia quente", diz-me, sem olhar. Sabe pelo jeito que as galinhas têm de ir para a sombra mais cedo.
O monumento que resiste à planície
O nosso monumento é a Igreja Matriz de Avanca, mas ninguém a chama assim. É "a igreja", simplesmente. Tem umas torres que parecem dedos apontados ao céu e, quando os sinos tocam às doze, o som abana as janelas das casas vizinhas. Dizem que foi classificada em 1977, mas o que importa é que ali dentro se baptizaram os meus avós, os meus pais, eu e os meus filhos.
Ao lado, o cemitério onde as campas têm nomes que se repetem: Silva, Costa, Pereira. As flores de plástico descoram ao sol e as velas eléctricas piscam mesmo de dia. É aqui que a planície encontra a sua vertical - as campas são o nosso desnível, o lugar onde a terra finalmente sobe.
Carne Marinhoa e a doçura que vem da ria
À sexta-feira, o Zé Manel abate o Marinhoa que pastou durante três anos nos campos da Curval. A carne vem com uma gordura cor de caramelo que estala na frigideira - minha avã dizia que "sabe a terra e a chuva". Servimos com feijão-frade da horta e um copo de tinto da Bairrada que o meu tio faz na garagem.
Mas são os ovos-moles que levam os visitantes à loucura. Na Pastelaria Central, a D. Lurdes faz-as desde 1983. A massa de hóstia vem de Lisboa - "aqui ninguém tem paciência para isso" - mas o recheio é cá da terra: gemas de galinhas criadas soltas, açúcar de cana e a canela que a minha prima traz das Beiras. Come-se em dois dentes, deixa-se o dedo polegar coberto de açúcar amarelo.
Conchas na mochila, lama nos sapatos
Os peregrinos chegam sujos de poeira e com aquele ar de quem já não sabe onde pára. Param no Café Avanca - "aberto desde 1962" - e pedem um café e uma sandes de queijo da serra. O António, o dono, pergunta sempre: "Vêm de longe?" e faz questão de lhes mostrar o caminho mais curto até à igreja seguinte.
Há um albergue na antiga escola primária, mas a maiém prefere o quarto que a D. Rosa aluga atrás da casa. Dizem que é pelo jardim - onde as roseiras competem com os pés de salsa - mas eu sei que é pelo pequeno-almoço: pão com manteiga caseira e doce de tomate que ela guarda em frascos de vidro desde o Verão passado.
A aritmética da permanência
Às dez da manhã, o café está cheio de homens de boné que já não vão para os campos. Jogam à sueca, bebem aguardente com café e discutem se chove ou não. As mulheres levam os netos à escola - um edifício novo, todo de vidro, que parece deslocado como um dente postiço. Mas lá dentro, a D. Helena ainda ensina os miúdos a dizer "ó meu Deus" quando tropeçam, tal como nos nossos tempos.
Os números dizem que somos menos, mas esquecem-se de contar os que voltam aos fins-de-semana. Os filhos do Zé Carlos, que foram para Lisboa estudar, aparecem à sexta-feira com o carro cheio de compras do Continente. A neta de nove anos já sabe onde nascem os pés de alface e pergunta porque é que a avó não tem Wi-Fi.
O último som antes de partir
Quando o sol se põe atrás das nuvens de Verão, não há espectáculo. A luz simplesmente desaparece, como alguém que apaga a luz ao sair de um quarto. É então que começam os sons: o grilo na figueira, o cão do Sr. Albano que ladra ao vento, o murmúrio da televisão na casa da vizinha.
Mas é o silêncio entre estes sons que define Avanca. Um silêncio que não é ausência, mas presença. O silêncio que fica quando o último trator para, quando as crianças acabam os jogos, quando os sinos da igreja deixam de vibrar. É neste silêncio que a planície finalmente fala - e o que ela diz é: fica.