Artigo completo sobre Beduído: terra plana entre pinhais e caminhos de fé
Freguesia de Estarreja onde o Caminho de Santiago atravessa campos cultivados e memórias enraizadas
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O cheiro a pinheiro não é perfume; é resina que se agarra à roupa quando se atravessam os matagais para apanhar cogumelos em Outubro. Não há areia — há m de terra negra, pegajosa depois da chuva, que se acumula nas solas dos sapatos e nas patas dos cães de caça. Beduído está a 34 metros acima do mar, sim, mas o que se sente é o peso do céu quando o vento virado a noroeste traz a tempestade. Entre a EN109 e a linha do caminho-de-ferro, o território respira por buracos: leiras onde ainda se fumiga a terra, muretes de pedra solta que marcam herdades perdidas para o pinhal, e a estradinha de Moninhos que afunda numa poça sempre que a ria invade os campos.
Território de passagem, lugar de permanência
Cinco mil almas, dizem os papéis. Na prática, são 4952, e muitas delas aparecem só no recenseamento. As casas são baixas, pintadas de branco-que-não-é-quite-branco, com portadas azuis que descascam ao sol. O silêncio chega às dez e meia da noite, quando o último autocarro para Estarreja já partiu e a bomba da Galp fecha. O Caminho da Costa passa mesmo ali, mas os peregrinos raramente dormem cá: param no café O Centro para um café e um torrão de açúcar, perguntam se ainda falta muito para Ovar, e desaparecem com a mochila a abanar. Ficam as setas amarelas, sim, mas também a erva que cresce entre as fichas de sinalização e a lata de Super Bock deitada no charco.
No Censos 2021 havia 1138 pessoas com mais de 65 anos e só 653 miúdos. A escola básica de Beduído tem duas turmas mistas; no recreio, os miúdos jogam à bola com uma laranjinha podre porque o campo é cascalho e a bola verdadeira furou. Os velhos juntam-se à porta do Minipreço quando abre às nove, compram o pão do dia anterior em promoção e vão para casa com o saco plástico a roçar no chão. Às terças-feiras é dia de mercado: duas bancas de fruta, uma de tecidos e o Senhor Joaquim que afia tesouras na traseira da carrinha.
Sabores certificados, raízes bovinas
Carne Marinhoa há, mas é no restaurante A Parreira, em Canelas, a 3 km — em Beduído só mesmo no churrasco do Clube de Caçadores, em dias de festa. O resto do ano, o gado Marinhoa pastura nos campos da Póvoa, e quem quer comprar direito ao produtor liga para o Zé Mário, que entrega em casa desde que se leve três quilos no mínimo. Ovos Moles só se fizeram cá quando a Isabel, a filha do Padre, casou com um aveirense e trouxe a receita da sogra; hoje faz-se um tabuleiro pequeno para a festa da Nossa Sr.ª da Saúde, em Setembro, e vende-se a 1,50 € cada unidade para angariar dinheiro para o altar.
O quotidiano entre o campo e a estrada
Nove alojamentos: seis apartamentos que o Luís converteu na antiga escola primária de São Miguel, dois quartos na casa da mãe que ele herdou, e uma casa de campo no cabeço do Vale Moinhos onde só cheia sinal se subir ao telhado. Quem fica é quem perdeu o caminho ou quem vem visitar os avós. Não há roteiros, nem lojas de recordações — há a mercearia O Nosso Cantinho que vende pregos à unidade e o papel de embrulhar em rolo, e há o café O Ponto de Encontro onde o dono, o Sr. António, serve um bica em copo de 0,55 € se levar a caneca própria.
Às seis da manhã, o primeiro comboio de mercadorias faz tremer as janelas das casas ao lado da linha. Às sete, o cheiro a leite queimado vem da fábrica da Lactogal, que fica fora da freguesia mas cujo vento traz o cheiro para cá quando está virado. Às oito, as mulheres da limpeza apanham o autocarro branco que as leva para a zona industrial de Estarreja. Depois, fica o barulho das motosserras no pinhal, o latido dos cães presos às árvores de onde se rouba o pinhão, e o silêncio que só é quebrado pelo tractor do Sr. Albano quando vai para a horta de batateiras atrás da cemitério.
Beduído não se propõe a ninguém. Quem cá nasce fica ou parte para a Suíça, França, ou para a fábrica da Fedrigoni. Quem cá chega por engano acaba por perceber que o engano é que era o certo: a estrada municipal que não leva a lado nenhum, a curva onde se avista a torre da igreja e, no fim do dia, o cheiro a lenha que se acende porque o gás ainda é caro.