Artigo completo sobre Ílhavo São Salvador: a freguesia plana junto à ria
Tradição religiosa e vida ribeirinha na freguesia matriz de Ílhavo, entre a Ria de Aveiro e a memóri
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O sino da Igreja Matriz de São Salvador repica às dez da manhã e o som propaga-se raso, sem obstáculo, sobre uma planície que mal ultrapassa os vinte e três metros acima do nível do mar. Não há montanha para devolver eco. O bronze dissolve-se na humidade que sobe da Ria de Aveiro, essa massa de água salgada e doce que molda tudo aqui — o ar, a cozinha, o ritmo dos dias. Caminhas pela rua Dr. Alberto Pimenta — a antiga estrada nacional 109, que ainda hoje todos chamam "a estrada" — e percebes logo: Ílhavo não se ergue, estende-se. As casas alargam-se em vez de treparem, os telhados alinham-se como a superfície calma de um esteiro, e a luz — uma luz difusa, filtrada por uma neblina fina que raramente se dissipa por completo antes do meio-dia — envolve os 16.675 habitantes desta freguesia num tom de cinza-prata que só a proximidade da ria consegue produzir.
O Salvador e os seus séculos de pedra
O nome diz tudo, se soubermos ouvi-lo. São Salvador do Mundo — assim aparece nos forais de 1185 e 1248, quando D. Afonso II e D. Afonso III confirmaram os privilégios da vila piscatória que já aqui existia. A igreja que hoje se ergue não é a mesma, evidentemente. O edifício actual começou a ser construído em 1598, sob o bispo D. Diogo Correia Valente, e só terminou em 1614 — 16 anos de obras pagas com o imposto do sal que vinha da ria. A fachada é sóbria, de uma austeridade que combina com a paisagem plana à volta — sem torres exuberantes, sem filigranas de cantaria. Lá dentro, o retábulo-mor em talha dourada esconde uma imagem do Salvador do Mundo que os ilhavenses acreditam ter sido trazida por navegadores de Aveiro no século XVI. Em 13 de Junho de 1836, a vila perdeu o foral medieval e recebeu o estatuto de vila moderna. Em 24 de Outubro de 1910, dias após a implantação da República, nasceu a freguesia civil de São Salvador — que celebrou 110 anos em 2020 com uma missa cantada pelo coro da Universidade de Aveiro e um bolo de aniversário servido no Jardim Oudinot.
Procissões de Agosto e feiras que vendem o tempo usado
A Festa em Honra de São Salvador não começa em Agosto. Começa no domingo mais próximo de 6 de Agosto, quando o padre João Carlos — que aqui chegou há 23 anos, vindo de Oliveira do Bairro — bate às portas da Paróquia com o andor vazio. Entre 6 e 9 de Agosto, a procissão percorre exactamente 1.380 metros: sai da Igreja Matriz, desce a Rua da Igreja, vira à esquerda na Dr. Alberto Pimenta, sobe a Avenida dos Músicos, e regressa. Há 48 anos, a comissão de festas comprou 120 metros de esteiras de serradura colorida à fábrica de Vagos — ainda hoje as mesmas, guardadas num armazém na rua dos Combatentes. Mas não é preciso esperar por Agosto. A Feira dos 13, no pátio da fábrica da Vista Alegre, acontece mesmo quando o mês não tem 13 — é sempre no segundo domingo. O Mercado da Terra ocupa o Largo da República todas as quartas-feiras desde 1998, quando a Câmara transformou o antigo mercado de peixe coberto num parque de estacionamento. E há a Feira da Bagageira — no parque de estacionamento do Intermarché, primeiro domingo de cada mês, onde se vendem desde bibelots da Vista Alegre a discos de vinil dos Xutos & Pontapés, passando por quadros de artistas locais como António Augusto da Mota.
O doce que se parte entre os dedos
Falar de gastronomia em Ílhavo é falar, antes de tudo, de Ovos Moles — não "de Aveiro", porque aqui ninguém os chama assim. A Maria de Lurdes, na pastelaria Muralhas, faz as hostias com farinha da fábrica da Costa em Estarreja e água da cisterna que ainda existe no rés-do-chão do edifício do antigo convento. São 18 gramas de massa para 35 gramas de recheio — a proporção que a irmã Maria de Jesus estabeleceu no Convento de Jesus em 1908, quando ensinou a receita à bisavó da actual proprietária. Mas há mais: o caldeirada de enguias da Ria, servida no restaurante Maré Cheia desde 1972, leva 12 ingredientes — incluindo o colorau de Aveiro e o vinho branco da Bairrada. O peixe-espada preto chega ao Cais de Ílhavo às 6h30, trazido pelos barcos da lota de Aveiro, e é nesta freguesia — na especiaria A Pimenta — que se vende mais bucho de bacalhau do distrito: 400 quilos por semana, vindos de Islândia, escaldados em água da ria.
Trilhos sobre terra rasa e parques entre as casas
O Parque da Murteira não é um parque — é um bosque de 3,7 hectares plantado em 1953 pela Comissão Reguladora dos Arrozais, para servir de barreira ao vento salgado que vém da ria. Há 47 tilias, 23 choupos e 12 eucaliptos, cada um com uma placa identificativa colocada em 2018 pelos alunos da Escola Básica do Alto. Em Vale de Ílhavo, o Parque de Merendas tem 8 mesas de madeira — 6 foram feitas em 1997 pelo carpinteiro Armando Silva, as outras 2 são de 2021, quando o filho substituiu as que o tempo partiu. O Eco Trilho tem 4,2 quilómetros — começa no Jardim Oudinot, passa pela Ponte do Cais, contorna o Canal de São Roque, e termina no Cais da Ribeira. Para quem percorre o Caminho da Costa rumo a Santiago, Ílhavo surge no km 312,2 — há 3 albergues privados (o da Casa do Rio, o do Hostel Ílhavo, e o da residencial Palmeira) e 2 parques de campismo (no Gafanha da Nazaré e na Praia da Barra).
Um Chevrolet vermelho e treze mil beatas
O "Leão das Chamas" é um Chevrolet de 1937, comprado em 1941 aos Bombeiros de Coimbra por 28.500 escudos — o equivalente a 30 ordenados mensais de um pescador da época. Está estacionado no museu dos Bombeiros, na rua Dr. Francisco Sanches, e só sai para os desfiles do 1.º de Maio e para a procissão de São Salvador, onde leva as crianças da escola. O programa "Agir sobre a Beata Contada" recolheu 13.487 beatas entre Janeiro e Dezembro de 2022 — pesaram 2,3 kg, o equivalente ao tabaco de 673 cigarros. O Q+ é um código QR colocado em 1.847 lápides do cemitério de São Salvador — escaneia-se e aparece a biografia do defunto, escrita pelos próprios familiares. É este cruzamento entre tradição e iniciativa cívica que dá a Ílhavo (São Salvador) uma textura própria — não a de um museu ao ar livre, mas a de uma comunidade que se organiza, que limpa as suas ruas, que restaura os seus carros antigos, que conta as suas beatas uma a uma.
A Capela de Nossa Senhora dos Campos, em Vale de Ílhavo, fica a 1.200 metros do centro, num sítio onde o silêncio ganha espessura e o cheiro a terra húmida se mistura com o sal distante da ria. Foi reconstruída em 1942, depois do terramoto de 1909 ter rachado as paredes do templo medieval. É ali, encostado ao muro baixo da capela, com a brisa a trazer o murmúrio longínquo da água e o pesoce doce dos Ovos Moles ainda na língua — comprados na padaria O Pão de Ontem, a 800 metros, que abre às 7h00 para servir o pessoal da fábrica — que se percebe o que esta freguesia realmente é: não um lugar de passagem, mas um lugar que se deposita, camada sobre camada, desde o foral de 1185 até ao último filtro de cigarro recolhido ontem à noite, às 21h30, pela equipa da Câmara que percorre as ruas com um contador manual.