Artigo completo sobre Monte: onde a ria respira entre canais e salgueirais
Igreja barroca, capitães do bacalhau e romarias junto aos sapais da Ria de Aveiro
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O som chega primeiro: o esguicho metálico de uma bicicleta nos paralelos da ciclovia, o bater surdo de uma porta de madeira no armazém junto ao canal, o grito agudo de uma garça que levanta voo sobre o sapal. Monte ergue-se — se é que cinco metros de altitude merecem o verbo — na planície costeira da Ria de Aveiro, e o nome não engana: refere-se ao único outeiro de doze metros onde se ergueu a Igreja Matriz em 1747, salvaguarda contra as cheias que periodicamente inundavam os campos. Aqui, a água nunca está longe. Ela serpenteia pelos canais de drenagem, espelha o céu nos braços do estuário, infiltra-se nas raízes dos salgueirais que margeiam o canal de São Roque.
Igreja, brasão e talha dourada
A Igreja Matriz de Monte conserva o traço popular barroco dos inícios do século XIX: retábulo de talha dourada que brilha à luz das velas, painéis de azulejo setecentistas onde santos e anjos flutuam em tons de cobalto. No adro, um cruzeiro de pedra marca o centro simbólico da freguesia. Mais adiante, casas senhoriais de raiz setecentista exibem brasões gravados nas pias de pedra — testemunho silencioso de famílias que enriqueceram com o sal e a pesca no Newfoundland. António Lopes Marinho, nascido em 1875 na quinta da Palmeira, foi capitão de longo curso e comandante de navios que atravessavam o Atlântico em busca do bacalhau. O chafariz de água potável junto à praça data de 1887, das obras de saneamento da Ria quando a drenagem das lagoas transformou o território.
Romarias, loas e ranchos da Páscoa
A Romaria de São Paio da Torreira atrai peregrinos de todo o concelho no fim de semana mais próximo de 15 de agosto. Há procissão de Nossa Senhora da Boa Viagem — antiga invocação dos pescadores e marisqueiros —, festa de São Simão com arraial e prova de doçaria conventual, cortejo dos Ranchos de Monte no Domingo de Páscoa, em que crianças cantam loas ao Senhor Ressuscitado. O Padre Joaquim de Monte, pregador itinerante do século XIX, ajudou a fundar irmandades de caridade que ainda hoje organizam estas celebrações.
Enguias, búzios e trouxas de ovos
A caldeirada de enguias da Ria ferve em lume brando, com cebola, tomate e coentros. O arroz de marisco à moda de Monte leva amêijoas, búzios e camarão apanhados no estuário. O ensopado de enguias acompanha-se de pão de milho denso, ainda quente. Na doçaria, as trouxas de ovos e os fuzis de ovos-moles — herança conventual de Aveiro, protegida pela IGP Ovos Moles de Aveiro — dividem a mesa com o pastel de feijão de Monte e o queijo fresco de cabra servido com doce de marmelo. A Carne Marinhoa DOP, criada nas pastagens do interior, chega às mesas em dias de festa.
Moliceiros, flamingos e rota dos moinhos
Monte é a única freguesia do concelho sem litoral direto, mas possui um pequeno porto de recreio no canal de São Roque, onde antigamente atracavam barcaças de sal. Dali partem passeios de moliceiro até à ilha dos Ovos. A ciclovia da Ria liga Monte à Torreira e à praia do Areão, atravessando sapal e marismas onde pousam garças, maçaricos e, em migração, flamingos. O trilho pedestre Rota dos Moinhos passa por moinhos de maré abandonados e observatórios de aves geridos pela SPEA em São Paio. Nas quartas-feiras, o mercado semanal na venda nova vende peixe fresco, hortaliça e louça de Murtosa pintada à mão em ateliers onde é possível decorar azulejos.
A população quase duplica no verão, quando regressam emigrantes da França e da Suíça. As vozes misturam sotaques, mas o cheiro é sempre o mesmo: enguias fumadas no cais, alecrim nos quintais, barro húmido do sapal quando a maré baixa e expõe o leito do canal. Monte mantém-se fiel ao seu nome improvável — uma elevação discreta num mundo horizontal, onde a linha entre terra e água nunca é definitiva.