Artigo completo sobre Cesar: onde a panela de pressão portuguesa nasceu
A freguesia de Oliveira de Azeméis que transformou latoaria em indústria e memória em património
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O ranger metálico da antiga Fábrica de Louça de Cesar ainda faz ranger os dentes a quem o ouviu trabalhar. Aqui, a 332 metros de altitude, entre vales que parecem ondas congeladas, o ar já não cheira a óleo de corte mas traz, nas manhãs de vento norte, o fumo do eucalipto queimado nos fogareiros das casas mais antigas. A panela de pressão Carochinha — essa sim, filha daqui — nascia numa oficina onde hoje se fazem peças para a Airbus, mas ainda há quem guarde no sótão o primeiro modelo, com o seu pinto vermelho estampado na tampa.
A honra que virou motor
Nas Inquirições fala-se em "Cesar e Gaiate" como terras de um cavaleiro que nunca cá pôs os pés. O que importa é que no século XIX os homens partiram para o Pará e voltaram com nomes de madeira: ipê, jacarandá, mogno. Trouxeram também a ideia de que se podia fazer dinheiro a transformar metal. As "Casas de Brasileiro" — as verdadeiras, não as que agora pintam de cor-de-rosa para vender gelados — têm ainda os azulejos originais, com garças que parecem flamingos e crianças de olhos de boneca. Em uma delas, na esquina da rua da Igreja, viveu o Zé do Brasileiro, que mandou vir da Bahia o primeiro motor a gasolina da vila. Serve hoje de garagem à neta, que guarda lá dentro os sapatos de dança do avô.
Entre torres e pedras que falam
A igreja tem duas torres porque o padre António, em 1834, prometeu construir a segunda se os franceses não chegassem. Chegaram, mas ficaram em São João da Madeira. A torre foi feita na mesma, e agora as campoinas dobram às sete da manhã com uma defasagem de três segundos — a da esquerda está sempre atrasada. Atrás do cemitério, o dolmen da Pedra da Moura não é só três pedras em pé: é onde os miúdos vão fumar o primeiro cigarro e onde as velhas ainda deixam flores no dia de São João, "para as almas não se zangarem".
Trilhos onde os pés sabem o caminho
O Caminho de Santiago passa aqui, mas os peregrinos costumam perder-se na bifurcação da Levada — uns vão parar à taberna da Guida, onde o vinho é servido em copos de iogurte, outros descem até ao Rio Ul, onde ainda há moinhos com pedras de molhar. O Cesar Trail, inventado por três amigos numa noite de aguardente, serve para justificar ao médico os quilómetros que se fazem para queimar o arroz de sarrabulho. No Parque de La Salette, as eucaliptas foram todas abatidas na tempestade de 2013; agora crescem fetos e medronheiros, e os escuteiros fingem que são índios.
O que se come (e bebe) quando ninguém vê
A Carne Arouquesa vem de Vilarinho, onde o Joaquim guarda vacas com nomes de ex-namoradas. A Marinhoa é da herdade do Seixal, mas quem mata o boi é o Zé Mário, que aprendeu o ofício no Brasil e traz facas que parecem matracas. O pão é feito por dona Alda, que só abre a portinha às quatro da manhã e fecha quando acaba a farinha — ninguém lhe toca no forno de lenha, que foi construído pelo pai em 1952. O mel é do Sr. Américo, que tem 87 anos e ainda sobe a serra de bicicleta; diz que as abelhas reconhecem a voz e por isso nunca foi picado. Na Festa de São Brás, a Câmara paga o vinho, mas é a velha guarda da casa do povo que faz as tripas — servem-se em tigelas de barro que ainda têm o selo da antiga fábrica.
A pedra que se não deixa apagar
Frei Simão de Vasconcelos nasceu na Quinta do Outeiro, onde agora há um galinheiro e um cão chamado Marx. Fuzilaram-no em Viseu por defender a Constituição, mas aqui guardam-se as cartas que escreveu à irmã, com manchas de cera e promessas de voltar. A Casa do Povo tem um retrato dele desenhado a lápis — parece o Zé Manel do cabeleireiro, mas com batina. Todas as quintas-feiras, a professora aposentada lê aos adolescentes os versos que escreveu antes de morrer: "A liberdade é como o pão: tem de ser feita todos os dias."
Quando o sol se põe atrás da serra da Freita, a fachada da antiga fábrica fica cor de ferrugem. É nessa hora que a vila parece suspirar: os estores descem com estrondo, as crianças gritam porque é hora de voltar para casa, e o cheiro a jantar mistura-se com o do rio que leva as nuvens. Amanhã voltará o ranger, mas agora é só o vento nas antenas parabólicas — e o silêncio que soa a gente que aqui ficou.