Artigo completo sobre Macieira de Sarnes: granito, talha dourada e fumo de louro
Macieira de Sarnes, em Oliveira de Azeméis, revela quintas históricas, a Igreja de Santa Eulália e vestígios que atravessam séculos no coração de Aveiro.
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O fumo sobe da chaminé da Quinta do Conde Campobelo, carregado de farinheira que cura. A 237 metros, Macieira de Sarnes domina o vale do Caima. O nome vem dos pomares ou do latim "macerare"; "Sarnes" dos lameiros que ainda amolecem no Inverno.
Memória gravada em pedra e talha
A Igreja de Santa Eulália, no centro, ergue-se desde 1756. Antes, a capela das Terças servia a paróquia. O retábulo dourado é de José de Santo António Vilaça; os azulejos, de Bartolomeu Antunes, mostram a martírizio da santa. No adro, o cruzeiro de 1883 veio do atelier de João Antunes de São João da Madeira. A pia baptismal românica das Terças, século XII, prova a antiga paróquia. Tradição oral fala de mosteiro beneditino ali fechado em 1568, freiras transferidas para o Mosteiro da Avé-Maria no Porto.
Os Cernache, senhores da quinta, mantiveram padroado até 1974. No Touto, Resende e Passadiço, os brasões ainda resistem. "Touto" era pedágio medieval na travessia do Caima.
O Caminho e a serra
A ponte de Caima, 1310, leva peregrinos para Santiago. Sobem pela Rua do Calvário entre sobreiros, seguem pela Rua da Igreja, descem à Estrada Nacional 333. A Serra de Macieira, 304 metros, guarda trilhos usados por contrabandistas até 1970. A Mata da Macieira, 23 hectares de carvalho-alvarinho, esconde javalis que destroem vinhas desde sempre.
O Trilho da Macieira, 4 km, parte do cruzeiro, desce ao vale do Ul. Lá em baixo, as poças das Arribanas abrigam rãs-verdes ameaçadas desde 1998.
Sabor que persiste
A chanfana vai ao forno de lenha da padaria Guedes, Rua Principal 42, durante seis horas. A Carne Arouquesa DOP vem da Quinta da Tapada, km 2 da EN 333. Farinheira caseira faz-se no lagar da família Costa, Lugar do Outeiro, com couro de porco e pimentão de Leiria. Matança do Porco acontece em janeiro: partilham-se 150 kg de toucinho, chouriços e morcelas entre vizinhos.
São Brás, 3 de fevereiro, distribui pão-por-Deus na porta da igreja. Nossa Senhora de La Salette, 15 de setembro, percorre Rua da Igreja, Rua do Calvário, Largo do Cruzeiro com 500 velas acesas. Na Feira da Cidade, agosto, a tasquinha da avó Guida serve pudim de ovos desde 1954. Mel das Terras Altas do Minho DOP adoça o vinho quente no Café Central, Praça da República 5. Licores de medronho destilam-se no alambique do Sequeira, Lugar do Passadiço, desde 1930.
No adro, ao pôr do sol, o granito do cruzeiro aquece. O cheiro de lenha desce das chaminés, mistura-se à terra dos lameiros e fica suspenso, como tudo aqui que resiste sem pressa.