Artigo completo sobre São Roque: peregrinos, granito e fumo de chouriça
Freguesia de passagem no Caminho de Santiago guarda memória em pedra e 5 mil habitantes sem alarido
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O sino da igreja bate às nove em ponto e o som não sozinho — leva consigo o eco abafado das chaminés baixas. São 705 hectares de terra divididos em parcelas que o vento do Vouga atravessa sem pedir licença. A 223 metros, o ar não é só fresco; traz o cheiro do eucalipto cortado há dois dias e a fumaça da chouriça que a D. Alda fuma na varanda, como todas as manhãs, antes de abrir a mercearia. É este cheiro que os peregrinos apanham quando sobem a Rua do Calvário, já com a mochila a marcar os ombros, a pensar se vale a pena parar para um café com leite antes de enfrentar o troço de terra que leva até São Vicente de Pereira.
O peso dos passos no Caminho Central
O caminho não entra em São Roque por porta nenhuma. Aparece de repente, entre duas casas de granito, onde o asfalto acaba e começa o calhau. Os peregrinos olham para o mapa, confirmam que a seta amarela aponta para cima, e seguem. Ninguém fica. Mas há quem pare — sente-se no muro da cisterna, bebe água do cano que nunca seca, e aproveita para ver o vale do Vouga como quem vê um postal ao vivo. Aqui, o único som que compete com o bastão no chão é o das motosserras na serra. Não há cafés com esplanada, nem albergues. Há uma máquina de venda automática de água e batatas fritas, junto à escola primária que fechou há dez anos e agora serve de centro de dia para os velhos jogarem sueca às quartas-feiras.
Pedra com estatuto
O cruzeiro de 1602 não está no lugar mais alto da freguesia, mas é o ponto onde toda a gente dá com os olhos. Está ao lado da igreja, debaixo do cedro que o padre mandou plantar para “dar sombra aos pecadores”. A pedra está escura, não da idade, mas da chuva que cai em diagonal desde o Atlântico e que deixa riscos negros no granito. Quem se aproxima vê as figuras quase apagadas — Cristo de um lado, Virgem do outro — e repara que alguém riscou “José + Céu 1987” na base. Ninguém sabe quem foi. Mas toda a gente reparou quando, no ano passado, a câmara mandou limpar e o “José + Céu” ficou mais claro do que nunca.
A carne que tem nome e a festa que tem santo
Não há restaurante em São Roque. Quer dizer, há um — o “Snackbar Central”, que é café, tasca e casa de pasto — mas fecha às segundas e não serve jantar. Quem quer carne Arouquesa vai à feira de S. João da Madeira, aos sábados, ou espera que o Zé Manel do talho traga de carrinha. A carne Marinhoa vem de Oliveira, já em posta, e é servida no dia de São Brás, quando a irmandade da igreja faz a “feijoada dos ricos” — com feijão vermelho, orelha e rabo, e um bocado de toucinho que derrete na boca antes de pensar. O mel é do Seixelo, trazido por um primo que tem colmeias na serra da Arada. Não tem selo DOP, mas tem sabor a urze e a tomilho-silvestre, e é isso que importa quando se come à colher directamente do pote.
A festa de São Brás é em Fevereiro. A procissão é curta — da igreja até ao cruzeiro e volta — mas o cântico fica no ar durante a tarde toda. As crianças levam pão às gargantas, os velhos levam um lenço ao pescoço, e há sempre um estrangeiro (este ano foi um alemão que vinha do Caminho) que pergunta se é costume comer-se o pão depois. Não é. O pão é para ser oferecido, não comido. No fim, serve-se café com bagaço caseiro, e quem não quer ir para casa fica na casa do povo a jogar à sueca até às onze.
Uma freguesia que envelhece sem se render
Não há banco. Fechou há cinco anos. O multibanco está no café, mas só funciona até às 20h. A farmácia é em Cucujães, a três quilómetros. A escola fechou, mas a creche ainda abre, e é aí que as netas de quem cá ficou vão enquanto os pais trabalham no Porto ou em Aveiro. O autocarro das 7h15 tem lugares marcados — mesmo vazio, para as pessoas saberem onde se sentam. Os velhos continuam a subir a rua da Fonte com o cabide de plástico na mão, a falar alto como se o telemóvel ainda fosse o telefone de disco. A diferença é que agora carregam no WhatsApp antes de começar a falar.
O que fica quando se parte
Quem vai embora leva o som do cão do Basílio, que ladra às motas mas deixa os peregrinos passar. Leva o cheiro do pão que a Fábrica da Igreja deixa arrefecer à porta, antes de fechar às 19h. Leva a imagem do nevoeiro a descer pela encosta, como um lençol que alguém puxa devagar, até só ficar o cimo do cruzeiro a sobressair. E leva, acima de tudo, a certeza de que — mesmo sem café, sem banco, sem escola — São Roque continua a ser um lugar onde o tempo não passa mais depressa do que o necessário para o pão crescer e o sino bater três vezes ao domingo.