Artigo completo sobre Cucujães: broa quente e São Brás no largo da Igreja
Vila de Oliveira de Azeméis onde o fumeiro se mistura com azulejo setecentista e memória ferroviária
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O sino da Igreja Matriz repica às oito da manhã de um três de fevereiro e o som ressoa contra o granito das fachadas do largo, rebatendo-se nas paredes caiadas das casas mais velhas. Dentro do templo, a talha dourada do altar-mor apanha a luz oblíqua que entra pelos vitrais e projecta reflexos ambarinos sobre os azulejos setecentistas. Lá fora, junto à porta travessa, uma mesa comprida exibe broa de milho cortada em fatias grossas, chouriço de carne de raça marinhoa e toucinho fumado — o pequeno-almoço camponês que se distribui a quem vem receber a bênção das gargantas na Festa de São Brás. O cheiro a fumeiro mistura-se com o ar húmido da manhã, e os dedos dos mais velhos seguram o pão quente como quem segura um objecto familiar, herdado sem contrato.
É assim que Vila de Cucujães acorda nos dias que lhe pertencem: com ritual, com cheiro a lenha e com a naturalidade de quem faz o mesmo há séculos sem lhe chamar tradição.
O nome que veio de 1547
Antes de ser Cucujães, foi "Cucugianes" — assim aparece nos documentos quinhentistas, grafia que resistiu até à reforma ortográfica de 1911. O topónimo remonta provavelmente ao latim cucujus, nome de uma família proprietária de terras na Idade Média, e a freguesia consolidou-se como pólo agrícola reconhecido já no século XVI. A sua posição geográfica — a 249 metros de elevação média, na transição entre a planície costeira e a serra de Santa Maria — fez dela um corredor natural entre o litoral e o interior.
Quando a linha do Vouga chegou no século XIX, Cucujães tornou-se ponto de carga e descarga de produtos agrícolas; os vagões levavam milho, batata e madeira, traziam de volta sal, bacalhau e tecidos. A estação ferroviária do Couto de Cucujães, desactivada em 1990, ficou adormecida durante mais de três décadas até que, em Dezembro de 2024, reabriu como albergue de peregrinos — o único em Portugal instalado numa antiga estação de comboio. A estrutura original em madeira e alvenaria mantém-se intacta, e no antigo cais de embarque uma exposição de fotografias históricas do troço Albergaria-a-Velha – São João da Madeira devolve ao visitante o som imaginado das locomotivas a vapor.
Seis quilómetros com setas amarelas
O Caminho Central Português atravessa a freguesia durante seis quilómetros, e quem o percorre descobre um território que se desdobra em camadas. Primeiro, os caminhos rurais empedrados, onde o musgo cresce nas juntas do granito e o pé sente a irregularidade de cada laje. Depois, as antigas levadas que conduzem água das ribeiras do Couto, da Pica e da Moura até campos de milho e pastagens onde vacas de raça arouquesa pastam com a lentidão própria de quem não tem pressa. Nos vales mais frescos, bosques de carvalho-alvarinho e freixos fecham-se sobre o caminho, filtrando a luz até a reduzirem a manchas verdes e douradas no chão de terra batida.
O trilho continua para norte em direcção a Grijó, passando pela Ponte Medieval de Salgueiro sobre o Rio Antuã — arco de pedra que sustenta séculos de passagens e que, ao meio-dia, projecta a sua sombra perfeita na água escura. Se fores lá de manhã cedo, vê se levas um casaco — o ar da ribeira é sempre mais fresco do que parece.
Mais recolhida, a Mata da Senhora da Alegría ocupa três hectares de vegetação densa, usada para percursos de interpretação ornítica. Melros-pretos, estorninhos-europeus e piscos-de-peito-ruivo fazem-se ouvir entre os ramos, e o silêncio entre os seus cantos é tão denso que parece ter textura. É o sítio ideal para fugir ao barulho, mas leva os sapatos certos — o chão é irregular e, no Inverno, transforma-se num pântano de lama.
O tijolo que as freiras inventaram
A mesa de Cucujães é território de horta, pomar e porco. A sopa de couves grossas com enchidos chega à mesa a fumegar, espessa, com o verde intenso da couve a contrastar com o vermelho do chouriço. O cozido de grão à moda local junta favas, nabos, chouriço de carne marinhoa e toucinho fumado — um prato que não admite sofisticação, apenas substância. Perfeito para os dias de chuva em que o corpo pede algo que o agarre.
Para grandes ocasiões, o cabrito assado na brasa de castanheiro, cuja gordura estala sobre as brasas e perfuma o ar com um aroma que se cola à roupa. Mas o doce que dá nome à freguesia na boca dos forasteiros é o tijolo de Cucujães: fina camada de massa folhada recheada com doce de ovos e amêndoa laminada, criação das freiras do antigo convento de La Salette. No café O Brasileiro — que não é brasileiro nenhum, é mesmo de Cucujães — serve-se acompanhado de café de torradaria artesanal. A textura estaladiça da folha cede à cremosidade do recheio com uma facilidade quase indecente. Leva dois, porque o primeiro desaparece antes de perceberes o que se passou.
Quem procura levar sabores para casa encontra-os no mercado mensal, ao primeiro domingo de cada mês, no Largo Dr. António José de Almeida: mel DOP de rosmaninho e carqueja — reconhecido como Mel das Terras Altas do Minho —, enchidos de marinhoa, artesanato em madeira de castanheiro e garrafas da cerveja artesanal Cucujães 3720, fabricada com águas minerais da serra de Santa Maria e lúpulo biológico. Isto se não estiver a chover — o mercado é ao ar livre e, em dia de aguaceiros, metade dos vendedores fica em casa.
Os Paulitos, as velas e uma banda de quase cem anos
Às quintas-feiras de Carnaval, grupos de jovens percorrem as aldeias da freguesia com palitos ritmados e cantigas satíricas — são os Paulitos, tradição que transforma a rua em palco e a sátira em forma de comunidade. A malta mais nova ainda participa, mas já não é como antigamente — agora há palitos de plástico e os versos vêm meio escritos no telemóvel.
Na Quaresma, o Enterro do Bacalhau ritualiza o fim da carne com uma procissão paródica. Pelo Natal, os Reis de máscara de madeira batem às portas. E quando chega o primeiro fim de semana de Outubro, as Festas de La Salette tomam conta de tudo: tasquinhas, concertos e um cortejo de velas que percorre as ruas principais, desenhando uma linha de luz trémula entre as fachadas de granito. É quando a freguesia mais parece consigo própria — toda a gente na rua, os cafés cheios, os vizinhos que só se veem uma vez por ano a conversarem como se se tivessem encontrado na véspera.
Em quase todas estas ocasiões, a Banda Filarmónica de Cucujães — fundada em 1928, a mais antiga do concelho ainda em actividade — marca o compasso. Participam em cerca de quarenta procissões e romarias por ano, e o som dos seus metais tornou-se tão inseparável da freguesia como o próprio nome. O maestro atual é neto de um dos fundadores — dizem que a batuta é a mesma, só mudou quem a segura.
O pôr do sol da Senhora da Alegría
Ao fim da tarde, o miradouro junto à Capela de Nossa Senhora da Alegría — pequeno templo barroco perdido em plena zona rural — abre-se sobre o vale do Antuã e a serra de Santa Maria. A luz rasante tinge os campos de milho de um amarelo quase alaranjado, as sombras alongam-se sobre as pastagens e, algures no vale, uma ribeira murmura sem se ver.
Cucujães tem quase dez mil habitantes, uma fábrica austríaca de iluminação automóvel que emprega 350 pessoas e uma densidade de 956 habitantes por quilómetro quadrado — mas daqui de cima, com o vento a trazer o cheiro a terra molhada e o último estorninho a recolher ao bosque, o que fica na memória não é um número. É o som exacto de um palito ritmado contra outro, ecoando numa rua estreita de granito, numa quinta-feira gorda qualquer.