Artigo completo sobre Bairrada musical: vinhas, clarinetes e memória antiga
Bustos, Troviscal e Mamarrosa combinam tradição vinícola com forte identidade cultural e musical
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O som chega antes de tudo o resto. Não é o vento nas videiras nem o murmúrio de um ribeiro — é um trecho de clarinete que escapa por uma janela entreaberta, hesitante, como quem ensaia uma frase antes de a dizer em público. Em Troviscal, numa manhã de sábado, o ar carrega essa vibração metálica que se mistura com o cheiro a terra húmida dos campos em redor. A luz desce oblíqua sobre telhados de barro vermelho e vinhas alinhadas em cordão, e percebe-se depressa que esta é uma terra onde a cultura não se pendura em paredes de museu — toca-se, sopra-se, canta-se.
A União das Freguesias de Bustos, Troviscal e Mamarrosa, criada em 2013 pela fusão administrativa de três núcleos do concelho de Oliveira do Bairro, estende-se por quase 2.842 hectares de planície suave, a uma altitude média que mal ultrapassa os 62 metros. São pouco mais de seis mil habitantes distribuídos por campos de cereais, manchas de floresta e, sobretudo, vinhas — as vinhas da Bairrada, que aqui definem o horizonte e o calendário. Se vier em Setembro, leve um casaco e não se queixe do cheiro a mosto: é assim que a terra respira.
Três nomes, três camadas de tempo
Cada uma das três antigas freguesias traz consigo uma arqueologia própria. Mamarrosa, cujo nome descende de mamula rasa — mamoa rasa, referência directa a monumentos megalíticos funerários —, guarda no topónimo a memória de uma ocupação pré-histórica. Já foi concelho independente, com administração própria, antes de ser absorvida por Oliveira do Bairro, e essa autonomia perdida ainda se intui na solidez da sua Igreja Matriz, o elemento patrimonial mais marcante da povoação, erguida como centro de uma comunidade que se bastava a si mesma. A igreja é das poucas que ainda abre à hora do almoço — aproveite.
Troviscal, por sua vez, pertenceu ao concelho de Cantanhede até meados do século XX, e essa condição de fronteira talvez explique o espírito de afirmação que levou a vila — elevada a essa categoria em 2003, no mesmo ano que Mamarrosa — a construir uma identidade cultural tão densa. Na zona do Passadouro, vestígios de uma ponte romana assinalam a passagem da antiga estrada entre Portus Cale e Conímbriga. A pedra gasta pelo tráfego de séculos já quase se confunde com o leito do terreno, mas está lá, muda e obstinada, a lembrar que estes caminhos rurais foram um dia artérias do Império. Se parar o carro e descer o barranco, ainda se vêem os arcos — mas leve sapatos fechados, o medronho não perdoa.
Bustos reconhece-se pelo Torreão, símbolo local que o poeta Hilário Costa celebrou nos seus versos dedicados à terra. A associação cultural de Bustos mantém viva uma programação de espectáculos de música e teatro que, numa freguesia com densidade de 218,9 habitantes por quilómetro quadrado, assume uma escala quase improvável. É capaz de haver mais gente no auditório que no café — e isso diz tudo sobre a importância do lugar.
A banda que as igrejas não queriam ouvir
A história mais reveladora deste território é musical. Em 1911, o professor José Oliveira Pinto de Sousa fundou a Banda Escolar de Troviscal, e durante décadas essa formação esteve proibida de tocar em cerimónias religiosas, por conflitos com as autoridades eclesiásticas. A proibição — cuja rigidez parece absurda vista de hoje — não silenciou a banda; empurrou-a para o espaço civil, para as festas de largo, para os coretos, para uma tradição de resistência sonora que moldou o carácter da comunidade. O Museu Etnomúsica, em Troviscal, preserva esse legado: instrumentos, partituras, fotografias a sépia de músicos de farda e bigode que tocavam contra a vontade do pároco. É uma visita que se faz em silêncio respeitoso, o que não deixa de ser irónico num museu dedicado ao som. A entrada é grátis, mas deixe lá os 2 euros na caixinha — o instrumento seguinte agradece.
Em Bustos, a tradição ramifica-se num Festival de Tunas e em grupos corais e de cantares populares. Mamarrosa responde com uma rede de associações culturais e recreativas — a Associação Beneficente de Cultura e Recreio entre elas — e até uma Associação de Dadores Benévolos de Sangue, gesto de solidariedade organizada que diz tanto sobre o lugar como qualquer monumento. A música e o associativismo são aqui duas faces da mesma moeda: formas de uma comunidade se manter coesa quando a demografia pressiona — os 1.778 residentes com mais de 65 anos superam largamente os 767 jovens até aos 14. Se vier no Verão, traga os miúdos: aqui ainda se brinca na rua sem ir ao telemóvel.
Leitão, vinho e a carne que poucos conhecem
Caminhas entre vinhas de castas tintas e brancas da Bairrada e o cheiro a mosto, na época certa, impregna a roupa. Esta é terra de espumantes e tintos com corpo, vinhos que pedem companhia à mesa. E a mesa responde: o leitão assado da Bairrada, com a pele estaladiça e dourada que se parte ao toque do garfo, é a referência gastronómica incontornável. Mas há um produto menos célebre que merece atenção: a Carne Marinhoa DOP, proveniente da raça bovina autóctone Marinhoa, criada nas pastagens desta faixa litoral. A carne tem uma textura firme, levemente marmoreada, e um sabor que reflecte a alimentação do animal em prados húmidos — é o tipo de produto que obriga a repensar o que se sabe sobre carne de vaca portuguesa. Experimente-a no Tasquinha do Manel, em Mamarrosa: não está no Google, mas está à direita da farmácia. Peça o bife na brasa com migas — e não se admire se o dono lhe contar a vida toda entre pratos.
A agricultura e a vitivinicultura continuam a ser actividades económicas de base, e a paisagem confirma-o: campos de cereais intercalados com parcelas de vinha, pequenos cursos de água que alimentam hortas, a margem direita do rio Boca a desenhar o limite natural de Mamarrosa. Se vir um tractor a atravessar a estrada, pare. O homem vai acenar, não vai apressar-se — e isso faz parte do ritual.
Caminhos entre vinhas e capelas
Os trilhos rurais que ligam as três povoações passam por capelas dispersas — São Tomé, São José, Santo António, em Troviscal — e pela Fonte da Saúde, cuja água corre fresca mesmo nos meses quentes. Não há áreas protegidas classificadas, mas a ausência de rótulo oficial é, neste caso, garantia de solidão: sentes o calor da terra batida sob as solas, ouves o zumbido dos insectos entre as cepas, cruzas-te com um tractor e o condutor acena sem pressa. O alojamento é modesto — duas unidades, entre moradia e quartos — o que mantém a escala humana de quem chega para ficar dois ou três dias, não mais, o suficiente para percorrer os caminhos e ouvir os ensaios. Há quem durma em Aveiro e venha cá jantar. Não é mau plano — mas perde o crepitar das chaminés às sete da manhã.
Ao fim da tarde, quando a luz alaranjada raspa as folhas das videiras e o ar arrefece o bastante para se sentir na nuca, algures em Troviscal recomeça o ensaio. Um trompete, desta vez. A nota sobe, sustém-se, e dissolve-se lentamente sobre os telhados — como se a Bairrada inteira afinasse por aquele tom. Se estiver no café do largo, o Silvestre vai dizer: “Estão a aquecer.” Não perca o fim do ensaio. É de borla — e não há bilhete que pague isto.