Artigo completo sobre Oiã: forno comunitário aceso e feira de gado no adro
Freguesia de Oliveira do Bairro onde a tradição da broa convive com a feira mensal de vacas Marinhoa
Ocultar artigo Ler artigo completo
O cheiro a lenha de carvalho chega antes de tudo o resto. Paira sobre a Rua da Igreja numa manhã de sábado, espesso e doce, escapando pela boca do forno comunitário onde a massa de milho e centeio já leveda há horas. Dentro, alguém vira a broa com as mãos nuas, num gesto que Joaquim Silva, mestre fornelheiro falecido em 1998, ensinou a gerações inteiras antes de partir. O calor irradia das paredes de tijolo enegrecido e, cá fora, o chafariz de 1892 deixa escorrer um fio de água que ninguém fecha — porque ninguém precisa.
É este o primeiro contacto com Oiã: não um monumento, não uma vista panorâmica, mas um som de água e um aroma de massa a cozer. A freguesia estende-se por mais de 2600 hectares de plataformas calcárias onduladas, entre os 40 e os 90 metros de altitude, no coração do concelho de Oliveira do Bairro. Quase oito mil pessoas vivem aqui — 7 862 segundo os últimos censos —, o que lhe dá uma densidade suficiente para manter mercearias, feiras e vida de rua, mas não tanta que lhe roube o silêncio dos vales onde correm as ribeiras de Paranhoa e Covas.
O adro onde mugem as vacas
No primeiro sábado de cada mês, o largo diante da Igreja Matriz transforma-se num cenário que já não existe em mais nenhuma localidade da Região Centro: uma feira de gado em campo aberto, no adro de uma igreja. Vacas da raça Marinhoa — cuja carne detém certificação DOP — alinham-se entre os cruzeiros de pedra, e os criadores discutem preços enquanto o sino das nove badaladas ecoa por cima das cabeças. O cruzeiro mais antigo, de 1747, ostenta uma inscrição latina que pede protecção contra a «peste do gado», doença que devastava os rebanhos quando a freguesia ainda pertencia ao Termo de Aveiro, sob domínio da Rainha D. Leonor. Ao lado, o cruzeiro de 1894 marca um outro tempo, mas a mesma preocupação: a terra e os animais.
Dentro da Igreja Matriz, o retábulo barroco captura a luz que entra pelas janelas laterais, e os painéis de azulejo oitocentista cobrem as paredes com cenas de devoção cujas cores — azul-cobalto sobre branco cru — parecem mais vivas do que a sua idade permite. À volta, num raio de poucos quilómetros, distribuem-se a Capela de São Sebastião, a de Nossa Senhora da Saúde na Cova, a de Santo António em Casal Mota e a de São Pedro em Paranhoa — este último lugar cujo nome, dizem os registos locais, vem de «para-rio», porque a ribeira desaparece no verão e ressurge a montante, como se a água tivesse vontade própria.
Baga, louro e sal grosso
A identidade de Oiã é indissociável da vinha. A casta baga, introduzida por freires beneditinos do Mosteiro de Lorvão no século XIX, adaptou-se de tal forma aos solos calcários e às vertentes expostas a sul que se tornou a principal variedade tinta de toda a Região Demarcada da Bairrada. Na Quinta da Boa Vista — casa senhorial setecentista com capela privativa —, a enóloga Maria da Graça Lobo foi pioneira na produção de espumantes de casta baga, e hoje é possível visitar a adega e provar esses vinhos com marcação prévia.
Mas a mesa de Oiã não vive só de vinho. O leitão assado, temperado exclusivamente com sal e louro, chega à mesa com a pele estaladiça e cor de âmbar escuro, acompanhado de batata frita cortada à mão e grelos amargos. A chanfana de bode coze lentamente em panela de barro com vinho tinto, colorau e alho, até a carne se desfazer ao toque do garfo. A morcela de arroz ainda é fabricada artesanalmente, e na mercearia «O Cantinho» pode provar-se com queijo de ovelha curado e chouriço de vinho, regados por um tinto de baga que mancha os lábios. Para o fim, os bolinhos de amor — gemas e açúcar, nada mais — ou os pastéis de massa folhada recheados com doce de gila, cuja doçura quase cristalina corta a gordura do que veio antes.
Conchas a cinco milhões de anos do mar
O Trilho da Bairrada, integrado no GR 30, atravessa a freguesia ao longo de 11 quilómetros que ligam Oiã a Sangalhos. O percurso serpenteia entre vinhedos em socalcos, bosques de carvalho-alvarinho e sobreiro no Planalto de São Pedro, e lameiros onde as vacas marinhoas pastam com uma lentidão que parece deliberada. No miradouro do Caramanhão, a vista abre-se sobre a Serra do Caramulo e a planície do Vouga — mas o mais extraordinário está debaixo dos pés: nas arribas fósseis da encosta, conchas marinhas com cinco milhões de anos afloram na rocha, vestígios de um mar que recuou e deixou para trás a prova da sua existência.
A antiga linha do Vale do Vouga, convertida na Ecopista de Oiã, oferece 15 quilómetros de pista para caminhada e BTT até Oliveira do Bairro. No inverno, as lagoas temporárias que se formam nos fundos de vale acolhem aves aquáticas migratórias, e entre novembro e março é possível observá-las ao amanhecer, quando a neblina ainda cobre os campos e o único som é o bater de asas sobre a água parada.
Chocalhada, concertina e o baile que não acabou
A vida ritual de Oiã segue um calendário denso. A 20 de Janeiro, na Festa de São Sebastião, a missa cantada termina com a bênção do pão. No primeiro domingo de Maio, a Romaria de Nossa Senhora da Saúde enche a Cova com procissão, alvorada e arraial. A 29 de Junho, o Círio de São Pedro leva a procissão pelas searas de Paranhoa. Na véspera de Natal, a Chocalhada percorre as aldeias — ranchos com chocalhos ao pescoço, num estrondo ritmado que se ouve a quilómetros. E na primeira sexta-feira de cada mês, no Centro Cultural, alguém puxa da concertina e mantém viva a tradição do «baile chinês» que Manuel Ferreira, conhecido por «O Corcel», recusou deixar morrer.
O moinho de vento de meia-rua, recuperado em 2009 — um dos dois exemplares deste tipo que restam em Portugal —, ergue-se no lugar do Moinho com as suas velas imóveis contra o céu. Mas é ao forno comunitário que se regressa sempre, como a um centro de gravidade. Ao fim da tarde de sábado, quando o workshop de broa termina e as últimas fornadas arrefecem sobre a pedra, o ar de Oiã carrega ainda aquele peso morno de farinha tostada e cinza de carvalho — um cheiro que não se fotografa, não se exporta, e que só existe exactamente aqui, neste largo, diante deste chafariz que não pára de correr.