Artigo completo sobre Arada: terra plana entre o sal e os passos peregrinos
Freguesia de Ovar com mais de 7 mil habitantes, onde o Caminho de Santiago cruza a vida quotidiana
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A estrada entra sem cerimónia. Não há curva dramática nem miradouro que anuncie a chegada — apenas a planície suave do litoral aveirense, com os seus telhados de telha lusa alinhados sob um céu que, nesta latitude entre Ovar e a ria, oscila entre o cinzento-pérola da humidade atlântica e o azul lavado que aparece a meio da manhã, quando o vento empurra as nuvens para leste. Arada estende-se por quase quinze quilómetros quadrados de terra rasa, e o primeiro som que se fixa não é o de um rio nem o de uma praça — é o de passos no asfalto quieto da Rua da Igreja, pontuado pelo ladrar distante do Bobi do Sr. Joaquim e pelo zumbido da torradeira da dona Rosa, que acorda às sete em ponto para preparar o café de quem passa na padaria.
O tecido denso de quem fica
Com 7358 habitantes distribuídos por terras que o António, o agricultor com 83 anos, mede em tempos de caminho de bois e não em hectares, Arada tem uma densidade que surpreende quem espera o vazio rural. Não é uma aldeia adormecida. É uma freguesia que respira ao ritmo de uma comunidade onde se cruza a vida toda no café "O Parque" — as crianças vêm do colégio às quatro, os avôs já lá estão desde as nove, e às segundas há rancho na cozinha da D. Lurdes que ninguém quer perder. Isto molda a paisagem humana de forma palpável: nos bancos de cimento à frente da igreja, paira sempre o cheiro de bagaço com que o Sr. Albino limpa o cachimbo, e na mercearia da esquina ainda se vende fiado a quem precisa — "vai-se pagando, vai-se pagando", diz a Amélia, que lá está desde 1978.
O corredor dos peregrinos
O Caminho da Costa atravessa o lugar de alto a baixo, mas quem cá vive chama-lhe simplesmente "o caminho". Os peregrinos aparecem com as mochilas às costas e perguntam onde fica o albergue — é a casa com a parede amarela, antes do cruceiro, onde a mãe da Ana deixa pão com chouriço nos dias de calor. Não há placa, nem seta, mas há sempre alguém no campo que lhes indica: "seguem sempre em frente, até verem a vaca malhada da tia Albertina". É pouco, e é exactamente o que basta. O caminho não pede luxo — pede uma cama de casal com colcha de matelassé e, se possível, o cheiro de sardinhas na brasa ao fim da tarde, quando o Sr. Manuel acende o carvão no quintal.
O sabor que leva certificação
Na Tasquinha da Amélia (que não é da Amélia, mas sim da filha, que se chama Fátima), a Carne Marinhoa vem do talho do Zé Manel, que mata o boi à sexta e à segunda já não há um bife. Tem gosto a pasto de ria, sim, mas tem sobretudo gosto ao tempero que a Fátima faz com alho da terra e louro do quintal — "o segredo é não ter pressa", diz ela, enquanto vira o bife na frigideira de ferro que herdou da avó. Os Ovos Moles não vêm em caixinha de cartão: vêm no prato da sobremesa, caseiros, com a hóstia partida por cima e o açúcar que se agarra aos dentes. Quem não gosta de doce leva leite-creme, mas é preciso pedir com antecedência, porque a Fátima só faz se o leite estiver "daquele dia, não é de caixinha".
A geografia sem espectáculo
Arada não se oferece em cartão-postal, é verdade — mas quem aqui nasceu sabe que, no dia de São Martinho, quando a luz da tarde bate na fachada da igreja, a parede branca fica dourada como se fosse de outro lugar. A planície é tão plana que, no Verão, o vento das três da tarde leva o pó da terra para dentro das casas — é por isso que as janelas têm estas portadas verdes, que a minha avó chamava de "batentes". Não há montanha, mas há o monte do Mogo, onde os miúdos vão de bicicleta e onde, no dia da procissão, se acendem fogueiras que se veem de Esmoriz. A luz, dizia o meu pai, "é de quem olha para o mar sem o ver" — raspa nos telhados e faz brilhar as lajes como se fossem de sal.
O quotidiano como matéria
Arada não é um destino que se visita — é um lugar que se atravessa, e nessa travessia, se estivermos atentos, ficamos a saber algo sobre a forma como uma comunidade densa e envelhecida se organiza no litoral norte de Portugal. A logística é simples: apanha-se a A29, sai-se em Ovar, segue-se para Cortegaça e depois vira-se à esquerda na rotunda do cemitério — não tem erro, há um placard da festa do São João que está lá o ano todo. O risco é praticamente nulo (só o cão do Celestino que ladra, mas é de trela). As multidões são inexistentes, excepto na noite das marchas, quando toda a gente vai para a escola primária ver as raparigas da Banda filarmónica dançar a "Porto Sentido". O que existe é uma freguesia que funciona, que alimenta os seus, que vê passar peregrinos rumo a Compostela e que, nos seus quintais e cozinhas, mantém vivos produtos e práticas que outros territórios já abandonaram — como o pão de milho que ainda se faz no forno do Sr. Aníbal, às quartas, e que cheira a terra e a fermento a três ruas de distância.
Ao final do dia, quando a humidade sobe da terra e o ar ganha aquele peso característico da proximidade ao mar que não se vê mas se pressente no ar salgado que entra pela Rua do Cemitério abaixo, Arada fica suspensa num silêncio particular — não o silêncio do abandono, mas o de uma casa cheia onde toda a gente já se recolheu. Fica apenas o cheiro da terra húmida, o murmúrio do Jornal Nacional na TV da sala, e, algures, o estalo seco de uma hóstia de Ovo Mole a partir-se entre os dedos de quem ainda está na cozinha a acabar o último café.