Artigo completo sobre Cortegaça: onde o sino ecoa entre pinhais e dunas
Freguesia de Ovar com raízes na cortiça, campos agrícolas e ligação ao Caminho de Santiago
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O sino da Igreja de São João Baptista não toca — rebenta. Rasga o ar matinal e vai abrir bocados de som entre os pinhais, até desfazer-se na areia. Quando o vento é de oeste, traz o sal queimado do mar e o cheiro a pinho torrado nos fornos da Sorespa. Cortegaça não é vista, é aspirada: entra-nos pelas narinas antes de mostrar os campos de couve-flor que, em Maio, parecem nuvens caídas, ou as vinhas que o meu tio ainda poda ao jeito do seu pai, com a faixa ao quadril e a navalha no bolso.
Raízes na cortiça
Dizem que o nome vem da cortiça verde, mas nenhum sobreiro resta. Sobraram, sim, os silenciosos montes de cortiça amontoada na fábrica da Espinho, antes de fechar, e o ranger da tábua de corte que ainda ecoa na memória dos mais velhos. O certo é que já em 1278 o lugar existia, com os mesmos limites aproximados de hoje: a ria por trás, o mar à frente, e no meio a planície que ainda alimenta quem cá ficou. A Igreja Matriz, baptizada com o nome do santo que ouvimos todas as noites, foi crescendo aos trambolhões: uma nave românica aqui, um arco manuelino acolá, o reboco do século XIX que descasca às pinceladas. Dentro, a pedra está polida pelos cotovéos de gerações que se ajoelharam na missa das sete, trazendo ao colo os mesmos bebês que hoje trazem os netos.
Entre o campo e a praia
Quem entra em Cortegaça pelo Caminho da Costa não precisa de setas: basta seguir o cheiro a borra de leite que escapa das cozinhas às seis da manhã, ou o cruzar das bicicletas carregadas de junco cortado na ria. A praia aparece de repente, depois do último pinheiro inclinado — o mesmo que serve de marcação aos pescadores de cascaís. A areia é fina, mas esconde pedras de gelo em Janeiro; o mar é bravo, mas respeita quem sabe ler o intervalo entre as ondas. Durante a semana, só se ouvem os gaivotos e o ranger das tábuas de surfe que os miúdos da terra guardam escondidas no matagal, para os pais não saberem.
À mesa com a tradição
Na mercearia da Glória ainda se vai às fatias: pede-se “um bocadinho de chanfana” e ela corta no olhometro, embrulha em papel de estraza e atira um ramo de salsa de graça. O peixe chega de tarde, dentro de caixas de esferovite, mas o bom é o que vem na rede do Zé Manel, que atraca na rampa às quartas e às sextas: enguias ainda vivas, robalos com o mar na guelra. Para açúcar, há ovos moles da Dona Alda — os mesmos que ela molda com duas colheres de pau, depois de levantar às cinco para ir buscar os ovos à quinta do irmão. Comer aqui é sentar-se à mesa de plástico azul, ouvir o mísseis da TSF e deixar que o vinho verde, servido em copos de cerveja, aqueça a garganta para o fado que o vizinho canta entre dentes.
Quando a noite cai
Às nove e meia, o sino toca outra vez — um toque curto, aviso de que o dia acabou. As luzes das casas baixas acendem-se uma a uma, projetando rectângulos de luz nas estradas de areia ainda quente. O cheiro a pinho agora mistura-se com o fumo das lareiras e o corte de salsa que sobra no capacho. Na praia, o mar continua a ranger, mas já ninguém o vê: só se sente, como um respiração larga que a aldeia partilha com ele.