Artigo completo sobre São João de Ovar: planície entre a Ria e os pinhais
Freguesia de 7 mil habitantes onde o sal da Ria se mistura com a resina dos pinhais do litoral
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O ar da manhã cheira a duas coisas que não se misturam: a maresia que sobe da ria e a resina quente dos pinhais. Entre uma e outra, a bruma fica-se a entornar pelos campos abaixo como quem não tem pressa nenhuma. São João acorda assim — devagarinho, com o ronco distante de um tractor e a água a correr nos regos como se fosse falar com o vizinho.
Dizem que aqui vivem 7 358 pessoas, mas na rua parecem menos. Os campos são grandes, as casas ficam com espaço para respirar e os muros baixos servem para apoiar os cotovelos e conversar. A densidade serve só para os estatísticos — quem cá vive sabe que o silêncio também é vizinho.
A igreja que organiza o olhar
A Igreja de São João Baptista está onde tem de estar: no meio. À volta dela, a terra organiza-se como mesa de família — cada um sabe o seu lugar. A fachada mistura manuelino e barroco como quem junta guardanapos de várias rendas: não combina, mas resulta. Os cruzeiros de pedra estão gastos como degraus de tasca — já viram mão que se cansa, joelho que se dobra, conversa que se prolonga.
Ao lado, a Capela da Misericórdia é do tempo em que as coisas se faziam para durar e não para impressionar. Entra-se num fresco que nem gelado de limão. No escuro, demora-se um segundo até os olhos habituarem — é como chegar ao café depis de sair do sol: primeiro não se vê nada, depois vê-se o essencial.
Pelas ruas adjacentes, as casas senhoriais vão-se aguentando. As portas de madeira estão rachadas como pão de ontem, mas ainda fecham. Nas varandas, de vez em quando aparece uma roupa ao sol — é o único sinal de que lá dentro há gente a viver o seu dia.
Sal, enguias e a doçura conventual
A ria é a despensa. A caldeirada de enguias faz-se em lume brando, com batata às rodelas grossas e o refogado a tomar conta da cozinha como quem tom conta da conversa. O arroz de marisco e o ensopado de borrego são os pratos que nunca faltam nas festas — cada família tem a sua panca para o tempero, mas todos concordam que o vinho tem de ser da Bairrada para cortar a gordura.
A Carne Marinhoa é dos bois que pastam entre os juncos — animais que vivem melhor que muita gente. O sabor é de quem teve tempo para crescer sem pressa. E os Ovos Moles são o doce que leva a forma da ria: conchas, peixes, barriinhos — açúcar que se desfaz na língua como promessa de festa.
A planície que caminha para norte
São João está no Caminho da Costa. Os peregrinos passam, olham para a planície e acham que é fácil. Esquecem-se que o vento lateral é tramado e que o sol, quando não há sombra, queima como tacho de ferro. Há nove casas prontas para os receber — não é muito, mas é o que se tem. Quem precisa de mais, vai para Ovar, a 3 km. Dá para ir a pé, de bicicleta ou de carro — mas quem vem a pé é que percebe a paisagem.
Fora do caminho, há trilhos que vão dar à ria. Não há placas grandes nem guardas-florestais — é só a terra, a água e as garças que parecem senhoras de meia-idade a discutir lugar na perna. A maré sobe, desce e ensina quem a ouve.
Uma freguesia entre gerações
Cá, os velhos são mais que os miúdos. Às nove da manhã, os bancos da igreja já estão ocupados por homens de boina que falam devagar — é a velocidade de quem já não tem de provar nada. Às cinco, chegam as crianças de bicicleta e o lugar muda de mãos. É como a maré, mas de gente.
A festa de São João ainda se faz — não há alvará nem programa impresso, há é vontade. O padroeiro dá nome à freguesia e à identidade: é o santo que batiza e a tradição que se aguenta sem pedir licença.
Ao fim da tarde, a bruma volta e a luz põe-se como quem baixa a voz. O único som é a água a correr — não se sabe de onde, mas sabe-se que está lá. É esse murmúrio que fica na memória de quem passa. A ria não precisa de aparecer para se fazer sentir — basta ouvi-la falar.