Vista aerea de São Vicente de Pereira Jusã
DGT - Direcao-Geral do Territorio · CC BY 4.0
Aveiro · CULTURA

São Vicente de Pereira Jusã: terra de vacas e altitude

Freguesia de Ovar que já foi sede de concelho e mantém viva a ruralidade a 126 metros de altitude

7357 hab.
126.4 m alt.

O que ver e fazer em São Vicente de Pereira Jusã

Património classificado

  • MIPEstrutura onde se integra o Aron Hakodesh ou Ekhal

Produtos com Denominação de Origem

Festas e romarias em Ovar

Junho
Festa de São João 23 e 24 de junho festa popular
Julho
Festa do Mar Primeiro fim de semana de julho festa popular
Agosto
Romaria de Nossa Senhora da Apresentação 15 de agosto romaria
ARTIGO

Artigo completo sobre São Vicente de Pereira Jusã: terra de vacas e altitude

Freguesia de Ovar que já foi sede de concelho e mantém viva a ruralidade a 126 metros de altitude

Ocultar artigo Ler artigo completo

O primeiro som da manhã não vem de motores nem de alarmes. Vem de um galo, algures atrás de um muro baixo de cimento caiado, e logo a seguir do arrastar metálico de um portão de quinta que alguém abre para soltar as vacas. O ar carrega uma humidade densa, quase mastigável, que desce dos campos e se mistura com o cheiro a terra lavrada de fresco. Estamos a cento e vinte e seis metros de altitude — pouco, em termos absolutos, mas o suficiente para que, nas manhãs mais límpidas, o olhar alcance a mancha prateada da Ria de Aveiro a recortar-se entre copas de pinheiro e carvalho. São Vicente de Pereira Jusã acorda assim, sem pressa, com os pés assentes no barro.

O nome que carrega um concelho morto

Há uma estranheza produtiva em pronunciar o topónimo completo: São Vicente de Pereira Jusã. Cada palavra é uma camada de história comprimida. O padroeiro, São Vicente, ancora a identidade religiosa que desde o século XVI organiza o território. Os Pereira Jusã — família influente cujo apelido baptizou um concelho inteiro — deram ao lugar não apenas um nome mas uma estrutura administrativa que durou séculos. Porque esta freguesia não foi sempre um apêndice de Ovar. Foi sede de um concelho autónomo, o de Pereira Jusã, que em meados do século XIX contava com mais de oito mil almas — mais do que os sete mil trezentos e cinquenta e sete que os Censos de 2021 aqui registaram. Em 1836, o território foi transferido para Ovar; em 1852, o concelho extinguiu-se de vez. O que resta dessa autonomia perdida não é ressentimento, mas uma certa altivez silenciosa, visível na forma como os locais dizem "cá na freguesia" com uma ênfase que dispensa complementos.

Uma igreja que demorou oito anos a nascer

A Igreja Nova de São Vicente de Pereira ergue-se no adro da Rua da Igreja com a solidez de quem foi construída para durar — e durou. A primeira pedra foi assente em 1756, a última em 1764, oito anos de trabalho lento que a fachada não esconde: há nela uma robustez sóbria, sem floreados excessivos, como se os construtores soubessem que o ornamento verdadeiro seria o tempo. A luz da tarde entra pelas janelas laterais e desenha rectângulos dourados no chão de pedra, aquecendo o interior fresco onde o silêncio tem uma qualidade quase sólida.

Trezentos metros a norte, o cruzeiro de granito de 1642 marca o lugar onde existiu o antigo templo — pedra escurecida pelo líquen, braços da cruz ligeiramente gastos pela chuva de séculos. Quinhentos metros a sul, outro cruzeiro repete o gesto, como se a freguesia precisasse de dois pontos cardeais sagrados para se orientar. Caminhar entre ambos é percorrer uma linha recta de devoção que atravessa campos, muros e o eco distante de um sino que já não toca mas que a memória local insiste em ouvir.

Carne que tem nome e sobrenome

Nos oitocentos e cinquenta e nove hectares da freguesia, a terra não é cenário — é matéria-prima. Os campos agrícolas que dominam a paisagem alimentam, entre outras coisas, a criação da raça Marinhoa, cujo nome a Carne Marinhoa DOP oficializa. É uma carne de fibra densa, escura, que nos assados longos de forno a lenha liberta um sumo gordo e aromático, quase caramelizado nas bordas. Os guisados tradicionais levam-na a cozer lentamente com batata e cebola, até que tudo se funda num molho espesso que pede pão para limpar o prato.

À sobremesa, a doçaria conventual da região impõe-se com os Ovos Moles de Aveiro IGP — aquelas hóstias finas recheadas de uma pasta de gema e açúcar tão intensamente amarela que parece conter a luz de todas as tardes de Verão. Na pastelaria Central, na Rua Principal, acompanham-se com vinhos leves da região de Ovar, brancos de acidez discreta que cortam a doçura sem a anular.

Trilhos entre quintas e pomares

Não há aqui grandes cordilheiras nem desfiladeiros dramáticos. A natureza de São Vicente de Pereira Jusã opera numa escala mais íntima: caminhos de terra batida que serpenteiam entre quintas, muros baixos cobertos de musgo húmido, pomares onde as árvores de fruto crescem sem alinhamento aparente, e pequenos bosques de carvalho e pinheiro onde a luz se filtra em lâminas verdes. A densidade populacional — mais de trezentos e quarenta habitantes por quilómetro quadrado — não se sente nestes trilhos rurais. É como se a freguesia guardasse para si mesma um circuito paralelo, afastado das estradas alcatroadas, onde o único tráfego é o de tractores e cães vadios.

Para quem percorre o Caminho da Costa de Santiago, a freguesia surge como uma etapa de transição entre o litoral de Ovar e a margem da ria, um trecho onde os pés trocam o asfalto pela terra mole e onde o horizonte se alarga sem aviso. Não é a etapa que aparece nos guias com fotografia de capa, mas é talvez aquela que os peregrinos recordam pelo descanso que oferece — dois alojamentos disponíveis, entre apartamento e moradia, sem a pressão de filas nem reservas esgotadas.

O peso justo da terra molhada

O que fica de São Vicente de Pereira Jusã não é uma imagem de postal. É uma sensação táctil: o peso das botas com barro agarrado à sola depois de um trilho entre quintas, a humidade que se instala na roupa e que nenhum casaco impermeável elimina por completo, o sabor residual de gordura de Marinhoa nos lábios horas depois do almoço. E, sobretudo, o cheiro — essa mistura exacta de estrume fresco, resina de pinheiro e fumo de lareira que sobe das chaminés ao fim da tarde e que, uma vez respirada, se torna a assinatura olfactiva de um lugar que não precisa de se explicar para se fazer entender.

Dados de interesse

Distrito
Aveiro
Concelho
Ovar
DICOFRE
011513
Arquetipo
CULTURA
Tier
vip

Habitabilidade e Serviços

Dados-chave para viver ou teletrabalhar

2023
ConectividadeFibra + 5G
TransporteEstação de comboio
SaúdeHospital no concelho
EducaçãoEscola básica
Habitação~1340 €/m² compra · 5.76 €/m² renda
Clima15.7°C média anual · 1146 mm/ano

Fontes: INE, ANACOM, SNS, DGEEC, IPMA

ADN da Aldeia

35
Romance
45
Familia
30
Fotogenia
40
Gastronomia
30
Natureza
25
Historia

Descubra mais freguesias

Explore todas as freguesias de Ovar, no distrito de Aveiro.

Ver Ovar

Perguntas frequentes sobre São Vicente de Pereira Jusã

Onde fica São Vicente de Pereira Jusã?

São Vicente de Pereira Jusã é uma freguesia do concelho de Ovar, distrito de Aveiro, Portugal. Coordenadas: 40.8742°N, -8.5355°W.

Quantos habitantes tem São Vicente de Pereira Jusã?

São Vicente de Pereira Jusã tem 7357 habitantes, segundo os dados dos Censos.

O que ver em São Vicente de Pereira Jusã?

Em São Vicente de Pereira Jusã pode visitar Estrutura onde se integra o Aron Hakodesh ou Ekhal. A região também é conhecida pelos seus produtos com denominação de origem.

Qual é a altitude de São Vicente de Pereira Jusã?

São Vicente de Pereira Jusã situa-se a uma altitude média de 126.4 metros acima do nível do mar, no distrito de Aveiro.

33 km de Porto

Descubra mais freguesias perto de Porto

Escapadas de fim de semana, natureza e patrimonio a menos de 60 km.

Ver todas
Ver concelho Ler artigo