Artigo completo sobre Escapães: Fogaças de Promessa e Moinhos de Granito
Tradição secular de São Sebastião mantém-se viva nesta freguesia da Serra de Santa Justa
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O cheiro a lenha mistura-se com o açúcar a caramelizar quando a madrugada ainda é escura sobre Escapães. É janeiro, e nas cozinhas das casas antigas os fornos já estão acesos, moldando estrelas de massa fermentada que irão percorrer a freguesia em andor, ao som de cânticos e ao clarão de tochas. A fogaça – doce que nasceu de uma promessa desesperada em 1883, quando o cólera ceifava vidas – continua a sair quente das mãos das mulheres que cumprem um voto de há mais de cento e quarenta anos. São Sebastião, padroeiro desta freguesia de 7,87 km², é invocado na Igreja Matriz seiscentista, onde um relicário guarda um osso do mártir, oferta do bispo de Coimbra em 1623.
O granito e a água que moldaram o povoado
Escapães ergue-se em suaves ondulações na vertente ocidental da Serra de Santa Justa, a 281 metros de altitude média. O nome aparece pela primeira vez num foral de 1514 como «Scapanes» – talvez do latim scapulae, os ombros do relevo, ou scapeanum, lugar de onde se escapa. A etimologia permanece incerta, mas a forma ondulada do terreno granítico justifica ambas as hipóteses. O rio Caima e os seus afluentes – a Ribeira de Escapães, a Ribeira do Casal – cortam o território em vales estreitos, onde os moinhos de pedra aproveitavam a força da água. Hoje, as ruínas desses moinhos abandonados pontuam o Trilho dos Moinhos, um percurso pedestre de seis quilómetros que segue as levadas até às antigas praias fluviais.
A igreja matriz, de traço maneirista, guarda no interior o brilho dourado de um retábulo barroco e painéis de azulejo setecentista que narram a vida do santo. No adro, cruzeiros de pedra setecentistas erguem-se contra o céu, enquanto a Fonte de Escapães – obra também do século XVIII – mantém o lavadouro público em granito cinzento, gretado pelo tempo e pela água que ainda corre. No Largo da Igreja, a Casa do Largo, solar rural remodelado no século XIX, ergue-se com janelas de cantaria e muros caiados, testemunha de uma época em que a agricultura de subsistência dominava a economia local.
Quando a carne e o pão contam histórias
A Carne Arouquesa DOP – gado bovino de raça autóctone criado nas pastagens de carvalho-alvarinho e sobreiro – chega à mesa grelhada ou em rojões marinados em vinho branco, alho e louro. No restaurante «O Moinho», o prato é servido com batatas a murro e arroz de feijão, enquanto o fumeiro liberta o aroma a chouriço de porco alentejano que entra no caldo verde. A Fogaça da Feira IGP, massa estrelada polvilhada com açúcar, é a protagonista da procissão nocturna de janeiro, mas também se encontra nas padarias ao longo do ano – doce de fermentação lenta que se parte com as mãos, libertando o vapor adocicado.
O ensopado de enguias do Caima, as papas de abóbora com fumados e as broas de milho completam uma gastronomia que não esconde a ruralidade. Nos doces conventuais – trouxas de ovos, papos de anjo, queijadas de leite de cabra – permanece a herança das receitas que circulavam entre os conventos da região e as casas senhoriais.
O rio, os terraços e os pássaros ao amanhecer
A paisagem agrícola mantém-se em terraços de xisto, onde hortas e pomares tradicionais aproveitam a humidade dos ribeiros. Quem percorre a rota de cicloturismo da Linha do Vouga, que passa a sul da freguesia, vê os bosques de carvalho intercalados com pastagens e, ao fundo, a serra de Santa Justa. A Ponte do Casal, estrutura medieval em pedra, cruza a ribeira num arco perfeito, enquanto a margem convida ao piquenique à sombra dos salgueiros.
Na Oficina do Mestre Quim, o torno de oleiro ainda gira, moldando peças de cerâmica tradicional que perpetuam técnicas transmitidas de geração em geração. E nas casas de turismo rural do lugar de Casal, o silêncio da madrugada é quebrado apenas pelo canto dos pássaros que habitam o ribeiro.
Escapães celebra-se em procissões e romarias – a Festa de São João em junho, com fogueiras e balões, o Cortejo da Senhora da Saúde em setembro, o Cantar dos Reis em janeiro, quando os máscaros percorrem as casas. Mas é na noite fria de 20 de janeiro que a freguesia se revela por inteiro: no clarão das tochas, no peso das andas, no cheiro a fogaça quente que ainda fumega quando é partida à porta da igreja.