Artigo completo sobre Fiães: onde moinhos de água ainda moem memória
Conheça Fiães, em Santa Maria da Feira, onde moinhos centenários, retábulos maneiristas e indústria têxtil convivem numa das freguesias mais densas de Avei
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O som chega antes da imagem: a água do rio Caima a bater nos rodízios de madeira do Moinho do Povo, o único que ainda gira todos os dias, lento, como se mastigasse o tempo em vez de grão. Estamos a cento e cinquenta metros de altitude, num território ondulado que nunca chega a ser serra nem se resigna a planície, e o granito cinzento dos muros baixos separa hortas de pomares em pequenos planaltos onde o verde escurece com a humidade da manhã. Fiães ocupa 6,2 km² — uma das menores freguesias de Santa Maria da Feira — mas os seus 7.096 habitantes (dados de 2021) denunciam uma comunidade que se comprimiu em vez de se dispersar, que preferiu sempre a proximidade ao isolamento.
Catorze maneiras de escrever o mesmo nome
Nas Inquirições de 1258, o lugar aparece como «Fyanes» — uma grafia entre catorze variantes que os documentos medievais registaram, como se a terra resistisse a ser fixada em tinta. A origem do topónimo permanece incerta: talvez derive de «faia» ou «faial», árvores que ainda hoje sombreiam os caminhos junto às ribeiras de São Paio e Covas. Durante séculos, a freguesia viveu integrada no couto de Santa Maria da Feira, até que o foral de D. Manuel I, em 1514, lhe confirmou uma autonomia própria. Houve confrontos durante as guerras liberais do século XIX — em 1832, tropas miguelistas atravessaram o Caima aqui — cicatrizes que o granito não guarda mas a memória oral sim. E houve, sobretudo, emigração — primeiro para o Brasil (décadas de 1880-1920), depois para França (pós-1960) — que esvaziou casas e encheu outras de azulejo e varandas de ferro forjado, marcas visíveis de quem partiu e mandou dinheiro para reerguer o que ficava. António dos Santos Cerqueira, emigrante em Saint-Étienne entre 1912 e 1958, financiou a construção da escola primária de 1953, um gesto que a freguesia ainda recorda com o nome inscrito na fachada.
Retábulo de luz filtrada
A Igreja Matriz de Fiães, reconstruída em 1596 após o incêndio de 1594, guarda no interior um retábulo maneirista classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1977. Quem entra pela porta lateral, quando a nave está vazia, encontra a luz a entrar enviesada pelas frestas, projectando riscos dourados sobre a talha de 1623. O silêncio ali dentro tem peso — é o silêncio de pedra grossa e cal antiga, interrompido apenas pelo estalido da madeira que dilata com o calor da tarde. A poucos passos, o Cruzeiro de Fiães, granítico e datado de 1723, marca a encruzilhada onde os caminhos se dividem entre o largo da igreja e a descida para o rio. E há ainda a Capela de São Sebastião, pequeno templo barroco que ganha protagonismo absoluto a cada vinte de Janeiro, quando ali se faz a bênção das fogaceiras antes da procissão.
1,2 quilos sobre a cabeça
A Festa das Fogaceiras, declarada de Interesse Turístico Municipal em 2012, é o coração cerimonial de Fiães. No dia 20 de Janeiro, 400 raparigas caminham em cortejo com fogaças sobre a cabeça — cada uma pesa exactamente 1,2 quilos, medida imposta pela Confraria desde 1953 — em honra do Mártir São Sebastião. A Fogaça da Feira, com IG desde 2006, é um doce esponjoso em forma de flor, feito com farinha de trigo, ovos, manteiga e limão, e o seu aroma adocicado e cítrico impregna as ruas estreitas durante toda a manhã. A procissão foi suspensa apenas três vezes: em 1937, por surto de febre tifoide; em 2021 e 2022, pela pandemia. Na Padaria Central (Rua da Igreja, 123), mediante reserva prévia, é possível participar num workshop de confecção de fogaças, enfiar as mãos na massa mole e perceber que a forma de flor exige uma torção precisa do pulso que só a repetição ensina.
Trinta e dois moinhos, três rodas
Em 1864, o cadastro de Parceria Industrial contabilizava trinta e dois moinhos de água em funcionamento ao longo do Caima e das suas ribeiras. Hoje, apenas três conservam a roda original (Moinho do Povo, Moinho do Meio e Moinho de São Paio), mas o Trilho dos Moinhos — um percurso pedestre de 4,5 km marcado pela Câmara em 2009 — liga cinco deles e permite ouvir, em diferentes intensidades, o murmúrio da água a correr entre pedras cobertas de musgo. O caminho atravessa carvalhais e sobreirais, passa por arribas de granito onde a humidade escurece a rocha até quase ao negro, e abre-se depois em clareiras onde o martim-pescador rasga o ar num lampejo de azul-cobalto. Junto ao Caima, há espaço para estender uma manta e abrir um farnel — e se esse farnel incluir rojões à moda de Fiães com sarrabulho (servidos no O Moinho desde 1983), ou fatias de broa de milho e mel da Cooperativa Agrícola, tanto melhor. A Carne Arouquesa DOP, de gado bovino criado nos campos da zona, aparece servida em chanfana no restaurante O Caima (EN227, km 3,2) ou simplesmente grelhada no O Moinho, onde o cheiro a brasas e a gordura crepitante atravessa a porta antes de se chegar ao balcão.
O inverno tem caldo, o verão tem bailarico
Fiães vive ao ritmo de um calendário que não consta em nenhum guia. Na noite de Natal, o «Cântico ao Senhor da Pedra» (com letra de José Joaquim de Carvalho, 1898) ressoa dentro da igreja; na primeira segunda-feira de Setembro, a romaria de Nossa Senhora da Saúde traz missa campal e arraial ao largo; no verão, o bailarico popular instala-se junto à igreja, com acordeão e cerveja morna a 2 euros o copo. No inverno, o caldo de nabos fumega nas cozinhas — espesso, com unto e couve cortada fina — e os vinhos verdes de castas Loureiro e Azal, produzidos em parcelas que mal dão para encher uma dúzia de garrafões, acompanham tudo com a acidez fresca que limpa o palato. Na Cooperativa Agrícola (fundação 1958) vendem-se peças em cortiça trabalhada à mão por sete artesãas locais, e os Paços do Concelho de 1926, edifício eclético que foi sede da extinta Junta de Freguesia até 1976, ainda mantêm a fachada intacta como testemunho de uma época em que cada lugar queria a sua própria sala de decisões.
A manhã acaba como começou: com o som da água no rodízio do Moinho do Povo, persistente, rítmico, quase muscular. Mas agora traz consigo o cheiro a limão e manteiga quente de uma fogaça acabada de sair do forno da Padaria Central — e esse cheiro, denso e doce, cola-se à roupa e ao cabelo como uma segunda pele que Fiães empresta a quem passa e não pede de volta.