Artigo completo sobre Lobão
A tradição das Fogaceiras de São Sebastião mantém viva a memória colectiva desta freguesia rural
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O cheiro a lenha mistura-se com o aroma da massa fermentada. Nas manhãs frias de Janeiro, quando o nevoeiro ainda se demora sobre os quintais e os soutos, as cozinhas de Lobão aquecem com fornos acesos. As mãos que amassam a fogaça seguem gestos antigos, transmitidos de avó para neta, numa cadeia que não se quebra. O som dos sinos da Igreja de São Sebastião corta o silêncio — é dia de festa, e toda a freguesia se prepara.
Promessa colectiva feita pedra e pão
A devoção a São Sebastião marca o ritmo desta freguesia desde 1573, ano da primeira referência documental à ermida dedicada ao santo. A Igreja Paroquial, reconstruída em 1755 após o terramoto, ergue-se no centro com a sua fachada caiada e o sino que convoca. Mas é dentro das casas que a tradição ganha corpo — literalmente. A Festa das Fogaceiras, celebrada anualmente em 20 de Janeiro, nasceu de uma promessa colectiva feita durante a pandemia de 1654-1656 que dizimou a região. Quem prometeu cumpriu, e quem cumpriu nunca mais parou. Hoje, cerca de 15 mil fogaças — pães doces de massa fermentada com erva-doce — são confeccionadas por 120 mulheres da freguesia segundo receitas que não se escrevem, apenas se mostram.
A distribuição das fogaças transforma a aldeia. Às 9h da manhã, a procissão parte da Igreja de São Sebastião, percorre as ruas Dr. José Antunes Guimarães, da Igreja e 25 de Abril, antes de regressar ao adro. Os cruzeiros de pedra do século XVIII marcam encruzilhadas, e os ranchos folclóricos de Lobão e Mozelos acompanham o cortejo. Não é folclore encenado — é gesto vivo, repetido porque faz sentido, porque liga as pessoas ao lugar e ao tempo.
Carne e terra
Lobão respira pelo campo. Com 762,94 hectares de relevo suavemente ondulado, a freguesia mantém 34% da sua área ocupada por agricultura. Os soutos — 180 hectares de castanheiros — alternam com 95 hectares de pomares onde predominam a laranjeira e o pessegueiro. A altitude média de 155,9 metros coloca-a na bacia hidrográfica do Rio Ul, o que favorece a diversidade agrícola.
A Carne Arouquesa DOP, uma das raças bovinas autóctones mais apreciadas do país, pasta nos 120 hectares de pastagens comunitárias. É carne de textura firme e sabor intenso, presente na chanfana que se cozinha lentamente em panelas de barro no restaurante O Cantinho, ou no cozido à portuguesa que reúne famílias aos domingos. Os enchidos tradicionais — chouriças de vinha-d'alhos, morcelas de arroz, farinheiras de batata — pendem nos fumeiros das 23 casas de matança ainda activas, ganhando a cor escura e o aroma a fumo de carvalho.
Caminhos entre o verde
Não há áreas protegidas classificadas, mas os 8,5 km de caminhos rurais de Lobão oferecem percursos tranquilos entre muros de pedra seca, sebes de pitosporum e riaceiros que correm baixinho. O verde predomina — verde-escuro dos castanheiros centenários do Souto da Rua do Monte, verde-claro das hortas biológicas da Cooperativa Agro-Feirense, verde-musgo das pedras junto à Fonte de São João. São percursos que não exigem preparação técnica, apenas disponibilidade para andar devagar e reparar: no canto de um melro-espreita escondido no matagal, no cheiro a terra molhada depois da chuva, no calor da pedra ao meio-dia.
A proximidade com Santa Maria da Feira — cujo castelo medieval se avista ao longe — permite combinar a visita, mas Lobão não é apêndice de nada. Tem o seu próprio ritmo, a sua própria lógica.
O gesto que fica
Com 2412 habitantes e uma densidade de 409,12 habitantes por quilómetro quadrado, Lobão mantém o equilíbrio entre aldeia e modernidade. Há cinco alojamentos disponíveis — o Solar das Andorinhas, a Casa da Eira, o Quarto da Avó, o Moinho do Souto e a Quinta do Pinto — para quem quer ficar mais do que uma tarde. E convém ficar, nem que seja para sentir o peso de uma fogaça ainda quente nas mãos, o açúcar cristalizado a brilhar à luz, e perceber que há tradições que não se explicam — provam-se.