Artigo completo sobre Rio Meão: Fogaças, Romaria e o Vale do Meão
Freguesia entre o rio medieval e a romaria das fogaças ao Castelo da Feira
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O eco metálico da charanga sobe pela encosta ainda antes de se ver o cortejo. É janeiro, e um grupo de mulheres avança descalço pela estrada municipal, equilibrando sobre a cabeça serpentes de massa doce que pesam cinco quilos ou mais. As fogaças oscilam ao ritmo dos passos, canela e limão no ar frio da manhã. Quatro quilómetros separam Rio Meão do Castelo da Feira — distância que se percorre em promessa, cumprindo um voto feito em 1561 quando a peste recuou destes vales.
A freguesia assenta no vale do rio que lhe dá nome, curso de água documentado desde 1220 nas doações ao Mosteiro de Grijo. O Meão — também grafado «Méão» nos forais medievais — corre entre margens de amieiro e salgueiro, alimentando terras de cultivo que durante séculos sustentaram uma economia agrícola. A altitude média de 111 metros confere ao lugar um clima ameno, protegido pelos contrafortes da Serra da Parada que se erguem a norte. Nos dias claros, a luz rasante da tarde incide sobre os campos em socalcos, desenhando geometrias que a mecanização ainda não apagou por completo.
Pedra, madeira e água corrente
A Igreja Matriz de São Tiago ergue-se no centro da vila desde 1258, classificada como Imóvel de Interesse Público em 1974. Os elementos românicos-góticos convivem com retábulos barrocos no interior, acumulação de séculos que se lê nas camadas de cal e talha dourada. O granito da fachada escureceu com o tempo, ganhando uma pátina que só a humidade atlântica confere. Nas imediações, casas senhoriais em cantaria recordam a organização rural tradicional, quando o couto de Santa Maria da Feira estruturava a propriedade fundiária nestes vales.
Ao longo do rio, os moinhos de água pontilham a paisagem — alguns em ruína, outros reconvertidos, todos com a mesma arquitectura funcional de pedra e madeira. A Rota do Meão segue o curso ribeirinho até à Feira, caminho pedestre que permite observar aves aquáticas entre caniçais e ouvir o murmúrio constante da corrente sobre o leito de seixo. A ponte medieval em cantaria, hoje integrada na estrada municipal, testemunha a importância estratégica desta passagem nos circuitos comerciais antigos.
Serpente de massa e promessa antiga
A Festa das Fogaceiras, celebrada no terceiro domingo de janeiro em honra do Mártir São Sebastião, estrutura o calendário colectivo. A fogaça — pão doce em forma de serpente, massa fermentada aromatizada com canela e limão — possui registo IGP desde 2014 e perpetua uma receita conventual. Nas padarias locais, o forno aquece dias antes da romaria, e o cheiro adocicado impregna as ruas estreitas. As mulheres que cumprem a promessa equilibram as peças sobre almofadas, descalças ou calçando sapatinhos tradicionais, seguidas por cortejo, música e bailarico que se prolonga até à noite.
A freguesia integra a área de produção da Carne Arouquesa DOP, gado de pelagem loura que pasta nas encostas verdejantes. Nos restaurantes de quinta, o assado chega à mesa com crosta estaladiça e interior rosado, acompanhado de batata assada e grelos salteados. O cozido à portuguesa mantém a versão local, com nabo e couve galega. Pão de milho, broas de mel e caldo de nabos completam uma mesa onde os vinhos leves de castas regionais ainda se bebem em copo grosso.
Quatro quilómetros descalços
Rio Meão celebra a 20 de maio a elevação a vila, estatuto alcançado em 1991 e comemorado com iniciativas cívicas que reúnem os 4813 residentes. A densidade populacional — 720 habitantes por quilómetro quadrado — reflecte uma ocupação equilibrada entre núcleo urbano e zona rural envolvente. Nos campos, o milho cresce alto no Verão, e o verde intenso contrasta com o xisto escuro dos muros de suporte.
O Trilho dos Moinhos, que liga Rio Meão a Lourosa, serpenteia entre mata de carvalho e eucalipto, cruzando ribeiros onde a água corre mesmo nos meses secos. Nas quintas de bovinos Arouquesa, o gado move-se lentamente entre pastagens vedadas, indiferente aos caminhantes que passam. Ao longe, o perfil do Castelo da Feira recorta-se contra o céu — referência visual constante, lembrança de que este vale sempre viveu sob a protecção e a autoridade da fortaleza no alto.
Quando o cortejo das Fogaceiras regressa à freguesia, já de tarde, as mulheres depositam as serpentes de massa no adro da igreja. O peso desaparece dos ombros, mas o cheiro a canela persiste nas mãos, memória táctil de uma promessa que se renova há 463 anos.