Artigo completo sobre Dornelas: sequilhos de anis e sobreiros no Caramulo
Freguesia de Sever do Vouga onde a cortiça moldou o nome e a tradição doceira resiste
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O cheiro a lenha de sobreiro queimada chega antes da vista se alargar sobre o vale. Dornelas ergue-se na vertente noroeste do Caramulo, onde o granito cinzento aflora entre lameiros de um verde carregado e o Rio Jardim corre entre carrascoais. A 490 metros de altitude média, a freguesia respira com a lentidão de quem aprendeu a viver da terra e do mato — 966 habitantes distribuídos por 904 hectares onde o silêncio só é quebrado pelo sino da igreja ou pelo assobio do milhafre-real a planar sobre as urzes.
A terra dos sequilhos
O nome vem do latim dornus, cortiça, e basta olhar em redor para perceber porquê: sobreiros pontuam a paisagem como sentinelas tortas, testemunhas de séculos de aproveitamento florestal. Mas é por outra coisa que Dornelas é conhecida nas redondezas — os sequilhos de anis. Receitas centenárias, guardadas em cadernos de capa oleada, produziam biscoitos que chegavam às feiras vizinhas transportados em cestos à cabeça. Hoje ainda se fazem em casas particulares, especialmente para a festa de São Tiago a 25 de Julho, quando a procissão sai da Igreja Paroquial reconstruída em 1893 e o arraial se instala no adro. O retábulo barroco e as imagens de talha dourada dentro da igreja contrastam com a sobriedade exterior — cal branca, porta de madeira gretada pelo sol e pela chuva.
Caminhos de pedra e água
Ao descer pela estrada que serpenteia até ao vale, cruzam-se pontes medievais como a Ponte do Souto, arco único de pedra sobre a ribeira de Pênga que murmura mesmo quando o Verão aperta. Eram passagens obrigatórias nos antigos caminhos entre Albergaria-a-Velha e Sever do Vouga, trilhados por almocreves e contrabandistas. Há quem fale ainda do "penedo do segredo", esconderijo de garrafões de aguardente durante a ditadura, algures no mato onde hoje só os javalis deixam rastos na terra húmida. Mais abaixo, junto ao Jardim, os moinhos de água desactivados erguem-se com as mós paradas, musgo a cobrir-lhes as paredes — memória de quando o milho e o centeio eram moídos aqui antes de virarem broa de batata ou pão que acompanhava a chanfana e o cabrito assado.
Sabores do mato e do fumeiro
A gastronomia de Dornelas não finge ser outra coisa senão o que sempre foi: comida de gente que caçava, criava e conservava. Javali estufado com vinho tinto, coelho à caçador com alho e louro, morcela e chouriço de vinho pendurados no fumeiro até ganharem aquela casca escura que estala ao corte. A Carne Arouquesa e a Marinhoa, ambas DOP, entram em guisados lentos que enchem a casa de vapor. Nos dias de festa, preparam-se as "fatias de Dornelas" e tortas de amêndoa que acompanham a aguardente de medronho da Serra do Caramulo — líquido transparente que arde na garganta e aquece o peito quando o nevoeiro desce.
Mergulhar no Jardim
O Trilho de Dornelas-Pessegueiro, seis quilómetros integrados na Grande Rota do Vouga, leva até ao Poço do Bolo — remanso fluvial onde a água corre verde-escura sobre pedras lisas. No Verão, é aqui que se vem refrescar, debaixo de amieiros que filtram a luz em manchas trémulas. O trilho continua entre esteva e carqueja, onde nidificam melro-preto e pintarroxo-de-cabeça-ruiva, espécies que os ornitólogos procuram com binóculos e cadernos de campo. Outubro traz a "Rota das Broas", percurso gastronómico que passa por casas de pasto onde a broa de batata ainda sai quente do forno de lenha, com aquela côdea estaladiça e miolo denso que pede manteiga de barrar.
Ao fim da tarde, quando o sol rasante incendeia as copas dos sobreiros e o ar arrefece depressa, fica o eco dos passos na calçada irregular e o ranger de uma porta que alguém fecha. Dornelas não promete espectáculo — oferece a espessura das coisas que demoram: o fumo que sobe direito antes de se desfazer, o peso de um cesto vazio, a marca dos dedos na massa dos sequilhos.