Artigo completo sobre Pessegueiro do Vouga: memórias ferroviárias no vale
Pontes abandonadas, rio Vouga e aldeias dispersas em Sever do Vouga marcam esta freguesia histórica
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O comboio a vapor já lá vai, mas ainda se ouve o seu barulho nas pedras das pontes e nos aterros cheios de silvas que acompanham o Vouga. Em Pessegueiro do Vouga, os restos da antiga linha são como cicatrizes que a terra decidiu não esconder: arcos de granito com fetos a crescer no meio, carris arrancados há décadas, estações onde o vento passa entre tábuas soltas como quem entra num café vazio. A EN 16 corre ao lado do rio, foi asfaltada nos anos 30 em cima do que era atirado à paulada, e a cada curva mostra um vale que parece feito de colinas a dormir e lameiros que querem chegar à água.
O rio que manda aqui
O Vouga passa por aqui durante nove quilómetros e faz-se ao lado como quem tem todo o tempo do mundo. As margens são de amieiro e salgueiro, há sítios onde a água está qu parada e outros onde o areal se foi acumulando mais de três metros, a comer a estrada e a obrigar os máquinas da câmara a virem cá tantas vezes que já conhecem os nomes dos cães das quintas. É um rio de pescar e de comer: caldeiradas que as mães fazem em tacho de barro, escabeche que aguenta dias, e canoas que descem devagar entre pinhais e céu que se espelha na água.
O nome da freguesia vem dos pessegueiros que antigamente cobriam as encostas como um cobertor. Já em documentos do século XIII se fala neste sítio, e em 1740 deram parte do território para fazer Paradela, por decisão de uns padres em Viseu. Ficaram 28 lugares — Bouço, Chã, Chão de Além, Sóligo, Ribela — cada um com a sua capela, o seu cruzeiro, e os seus sinos que tocam às horas que nenhum relógio marca.
Pontes, capelas e coisas que se vêem todos os dias
A Ponte do Poço de S. Tiago é o que se há-de mostrar aos visitantes: um arco de ferrovia que serviu a Linha do Vouga e agora se aguenta lá em cima como quem já não tem pressa. Ao fim da tarde, o sol pega-lhe no granito e as sombras caem na água como se fossem lençóis a estender. É foto para instagram, é paragem para ciclistas que vêm da ciclovia que liga Pessegueiro a Rocas do Vouga. Pelo caminho há garças, patos e o guarda-rios que passa num zunzun azul.
As capelas e cruzeiros são o que se vê: paredes caiadas, beirais que protegem a chuva, portas baixas onde um homem alto se esquece de abaixar a cabeça. Não há coisas grandes, mas há jeito — cada coisa está onde tem de estar, feita com o que a terra dava e pensada para o tempo que cá se passa.
O que se come
Aqui há três nomes que importam: Carne Arouquesa DOP, Carne Marinhoa DOP e Vitela de Lafões IGP. Nas churrasqueiras, a carne vai para a brasa de carvalho e faz fumo que mete fome a quem passa. Serve-se em tábuas com broa de milho que queima os dedos. O rio dá peixe para caldeiradas com batata, cebola, coentros e azeite que vem da serra. Para acabar, doces de convento que são açúcar, ovos e canela — o que sempre sobrou para fazer sobremesa.
Andar devagar
A ciclovia do Vouga é para quem não tem pressa. Aproveita caminhos de sirga e troços da linha onde o comboio já não passa. Há estações abandonadas com nomes que o tempo foi apagando. Vacas Arouquesas pastam nos lameiros sem dar pela bicicleta. Em Sóligo e Ribela, os pátios cheiram a lenha molhada. Junto às levadas, há quem ponha a toalha na relva e faça piquenique com queijo e vinho sem rótulo — coisas que se têm em casa.
O comboio acabou, mas o vale continua como sempre: devagar, com o sino da igreja a marcar a hora e o Vouga a murmurar. Quando a lhe da tarde bate na Ponte do Poço de S. Tiago e os arcos se vêem inteiros na água, percebe-se que há sítios onde as coisas que os homens fizeram se tornaram paisagem — e onde a paisagem guarda a memória de quem cá passou, como quem guarda um copo para o amigo que vai chegando.