Artigo completo sobre Calvão: onde o Vouga dita o ritmo da vida rural
Freguesia com nome único em Portugal, entre moinhos antigos e campos férteis junto ao rio Vouga
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A água corre devagar no Vouga, quase sem ruído, apenas o murmúrio leve da corrente a bater nas margens cobertas de vegetação ripícola. Nas manhãs de Outono, o nevoeiro sobe do leito e envolve os campos cultivados que se estendem pela planície, difundindo o cheiro a terra molhada e a humidade fria que se prende à pele. Calvão acorda assim, sem pressa, com o som distante do sino da Igreja Matriz - às 8h e às 19h, sem falhar - e o eco dos passos na calçada irregular que sobe até à igreja, onde ainda se vêem as marcas das rodas dos carros de bois nas pedras mais gastas.
A origem de um nome raro
O topónimo Calvão é único em Portugal — não há outro lugar com este nome exacto no país. Aparece pela primeira vez em documentos de 1258, no Livro das Inquirições de Afonso III, como "Calvam", integrado na coutada de Vagos. Deriva do latim calvus, que significa "calvo" ou "sem vegetação", possivelmente uma alusão às margens de xisto nu onde o Vouga fazia curvas mais largas antes da canalização do século XX. Durante a Idade Média, pertenceu ao Mosteiro de Santa Maria de Vagos, fundado em 1135 por D. Afonso Henriques. As três freguesias - Calvão, Ponte de Vagos e Calvão de Cima - só se fundiram em 1855, durante as reformas administrativas de Passos Manuel.
Pedra e devoção
A Igreja Matriz de Calvão, edificada em 1673, ergue-se no centro da freguesia com uma arquitectura simples, despojada de ornamentos excessivos, mas de presença sólida. O retábulo-mor, em talha dourada, foi mandado fazer em 1723 pelo prior Manuel de Sousa. No interior, a imagem de Nossa Senhora do Rosário - trazida de Lisboa em 1689 - ocupa lugar de destaque, com a sua capela lateral sempre cheia de velas acesas às quartas-feiras. A romaria anual realiza-se no primeiro domingo de Outubro, quando se processiona com a imagem até ao cruzeiro de 1784, erguido por iniciativa do abade José Ferreira. Na capela do Senhor do Calvário, construída em 1742 na lugar do Outeiro, ainda se faz a via-sacra todos os anos na Sexta-feira Santa, com os moradores a subirem o caminho de terra batida entre ciprestes plantados em 1932. Dos quatro moinhos de água que existiam - Moinho do Penedo, do Corgo, do Ribeiro e do Mouchão - só restam em pé as paredes do Moinho do Penedo, onde se pode ver ainda a roda de madeira de nogueira com 5,3 metros de diâmetro, parada desde 1963.
Sabores da margem
A cozinha de Calvão responde ao ritmo do rio e dos campos. Quando a lampreia sobe o Vouga, entre Janeiro e Abril, os pescadores locais - os Carvalhos, os Silvas e os Ferreiras - montam os seus pesques nas curvas do rio, onde a água é mais funda. O arroz de lampreia faz-se no tacho de barro da Avó Albertina, com vinho tinto da Quinta do Outeiro em Oiã, e leva sempre uma malagueta da horta. Nos meses mais frios, os ensopados de borrego cozinham no forno de lenha do restaurante O Vouga, onde o Zé Mário usa sempre o borrego da sua irmã, a D. Lurdes, que os cria no lugar de Cima. As fatias de Calvão - inventadas na pastelaria Gomes em 1958 - são massa folhada recheada com doce de ovos da fábrica em Oliveira de Azeméis, cortadas em triângulos que medem exactamente 8 centímetros. No restaurante O Cruzeiro, servem-nas com espumante da Quinta das Herédias, onde o Sr. Américo produz o seu "Calvão Bruto" desde 1987.
O caminho e a água
Calvão integra o Caminho de Santiago da Costa desde 2016, quando a associação local marcou os 14,2 km até ao Rio Certima com as setas amarelas. O troço que passa pela freguesia começa no cruzeiro da igreja e segue por caminhos de terra até ao pesqueiro do Mouchão, onde se cruzam com o trilho do Vouga. Este, criado em 2008 pela Câmara de Vagos, tem 8 km de ida e volta até ao limite com a freguesia de Ponte de Vagos. No km 3, junto ao açude de 1952, há um miradouro de madeira onde se avistam regularmente garças-reais, martins-pescadores e, nos dias de inverno, os mergulhões-coltos. A elevação média de 35 metros e o terreno plano tornam os percursos acessíveis, mas atenção ao piso escorregadio junto ao açude nos dias de chuva.
Memória líquida
Ao final da tarde, quando a luz rasante atravessa os campos de milho e tinge o Vouga de dourado, o silêncio de Calvão adensa-se. No lugar do Corgo, onde mora a D. Rosa com seus 92 anos, ainda se pode ouvir o som que ela diz ser "o mesmo de sempre": o murmúrio da água a passar debaixo da ponte de pedra de 1874, construída sob a direcção do engenheiro Miguel Pais. É esse som que fica, discreto e contínuo, a correr devagar entre as margens, levando consigo a memória dos dias em que aqui vinham 30 pescadores de lampreia, quando o Vouga trazia "tanto peixe que se podia atravessar a pé em cima deles", como conta o Sr. Amândio, de 87 anos, no banco de madeira junto à igreja.