Artigo completo sobre Ouca: onde a planície respira ao ritmo da água
Freguesia de Vagos entre canais de rega, vinhedos discretos e o Caminho de Santiago da Costa
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A estrada que atravessa Ouca desenrola-se entre campos baixos e canais de rega, onde a água corre devagar, quase sem ruído — um fio constante que se perde entre taboas e juncos. Estamos a dezassete metros acima do mar, numa planície que os avós drenaram com enxadas e sacrifício; ainda hoje se encontram talhadas nas margens as marcas das sapatas de boi que puxavam as sacholas. Aqui não há montanhas, apenas a linha tremida da Ria a fugir para poente e, no céu, gaivotas que às vezes se perdem tanto quanto nós.
Ouca tem mil e setecentos e cinquenta residentes, mas este número engana: aos domingos, quando os filhos regressam dos arredores de Aveiro ou de Lisboa, as mesas alongam-se e o cheiro do assado atravessa as ruas. Fora esses dias, o ritmo é o das portas de madeira que rangem ao abrir, do café Chiado onde o João ainda serve o bica na chávena quente — “senão esfria logo” — e da padaria que só acende o forno nas sextas, mandando pelo ar o aroma de casca queimada que me lembra a casa da minha avó.
Entre a Ria e a Bairrada
A oeste, a Ria esconde-se atrás de um cordão de dunas, mas faz-se sentir no sal que cola à pele e no cheiro de algas que o vento traz às cinco da tarde. A leste, começam os solos de barro vermelho onde o Baga agarra raízes: não são vinhedos em socalcos monumentais, mas parcelas de meio hectare entre eucaliptos, onde o Zé Mário ainda amarra as videias ao cepo com tiras de vieira — “é o que a minha mãe fazia, aguenta o vento da costa”.
O Caminho da Costa passa aqui, mas os peregrinos raramente pernoitam. Param na fonte de São Tiago, enchem a garrafa de plástico, perguntam se ainda falta muito para Ovar. Respondo-lhes que depende: se forem de alma leve, chegam ao cair da noite; se carregarem o peso do mundo, é melhor dormirem na pensão da Glória, em Vagos, onde ainda se servem moelas de jantar.
Quotidiano de água e terra
A semana começa às seis, quando o motor da motocultivadora ecoa no nevoeiro. São hortas de tombo — couves, nabiças, algumas couve-flor que o tempo das mudas atrasou — e, atrás, os galinheiros de tela verde onde as galinhas dormem em cima dos poleiros de castanho que o meu pai lavra todos os anos com óleo de linhaça. Nas tardes de Agosto, o ar fica pesado com a fumacenta das queimadas: queimam-se os restos da batataira, depois gradeia-se a terra e semeiam-se as couves de inverno. O cheiro a pinho queimado fica na roupa durante dias.
Na cozinha, a minha mãe guarda a panela de ferro só para as enguias: escorre-as em cima do balcão de granito, deixa-as morrer na água fria, depois frita-as no azeite com alho e salsa. Quando há visitas, tira do frigorífico o cabeçote que matou em Novembro; as rodelas de chouriça tingem-se de paprika e vinho, e o pão — aquele que o Sr. António ainda faz no forno comunitário de Oliveira — serve-se quente, com manteiga salgada que derrete e escorre pelos dedos.
Onde o espaço ainda é luxo
Às sete e meia, quando o sol se põe atrás do eucaliptal, a estrada fica dourada e os grilos começam o seu trabalho. Caminho para casa com a luz a bater-me nos tornozelos; no caminho, cruzo-me com a Adelina que leva o cão a passear e me conta que o neto vai para a Universidade do Porto — “em Engenharia, imagina!”. Não há pressa: o carro que vem atrás abranda, acena, espera que a conversa acabe. O espaço aqui não é apenas metros quadrados; é tempo para cumprimentar, para olhar o céu e ver que, amanhã, o vento virará de norte e trará chuva leve — a mesma que os campos já conhecem de cor.