Artigo completo sobre Sosa: Onde o Latim Ainda Ecoa na Romaria de São Martinho
Freguesia de Vagos preserva cântico único em Portugal e chanfana comunitária sob os carvalhos
Ocultar artigo Ler artigo completo
O sino bate às onze, mas em Sosa ninguém olha para o relógio. O som abana as janelas das casas baixas e varre o adro como quem avisa: já é hora de ir à padaria. Lá fora, o fumo sobe direitinho do forno do Sr. António — broa de milho com o miolo húmido que faz cócegas ao nariz. É novembro, o vento vem do Vouga com um bocado de maresia e o pão acabado de sair queima os dedos de quem não espera.
Pedra, água e latim
A Igreja Matriz é mais pequena do que as fotografias deixam parecer. Dentro, o cheiro a cera derretida agarra-se ao velho barroco dourado e aos bancos de madeira onde as gerações se sentaram com as mesmas costas curvadas. No dia onze, depois da missa, o coro de aldeia — aquele que ensaiou durante três semanas no salão da Junta — entoa o "Cântico da Despedida" em latim. Não é nenhum espetáculo: há vozes falhadas, um rapaz que ainda não mudou a voz e uma senhora que segura a partitura ao contrário. Mesmo assim, quando o último acorde se perde nas abóbadas, há quem tire a manga da camisola para limpar os olhos.
O cruzeiro manuelino, ao lado, tem uma data — 1527 — mas ninguém sabe ao certo quem o mandou fazer. A inscrição árabe na base é só uma mancha cinzenta que os miúdos tentam desenhar com o dedo. Já a Casa do Terreiro, essa tem degraus escorregadios de tanta gente que ali se sentou a descansar, esperando pela procissão ou pelo funeral. As crianças gostam de deslizar de rabo nas escadas de granito, até a mãe gritar que vai estragar as calças.
O que se come mesmo
A chanfana não é todos os dias. É no domingo antes de São Martinho, quando se juntam os tacho de barro que a avó guarda no sótão e se abrem as garrafas de vinho tinto que o tio trouxe da Bairrada. A cardeia de cabra foi salgada três dias antes; depois de três horas ao lume, desfia-se só de olhar. Não há receita escrita: cada família tem o seu segredo — um bocado de casca de laranja, um fiapo de canela, um copo a mais de vinho. Serve-se em tigelas de barro, com pão de milho que o Sr. Carlos ainda vai buscar quente, porque “se arrefece, já não é o mesmo”.
No Inverno, quando o Vouga transborda e a lagoa se forma atrás do moinho, aparecem as enguias. A caldeirada fica escura como a lama do rio e leva Tomates mesmo maduros — os que a vizinha deixa esturar no quintal. Come-se com as mãos, lambem-se os dedos e depois bebe-se um golo de aguardente para “fazer descer”.
Quando a maré sobe para dentro
A “maré de Sosa” não vem de longe: é a água salgada que empurra o Vouga para trás e enche os campos baixos. Durante dois dias, a estradinha de terra que vai para a Praia da Barra fica alagada e os patos-reais pousam nos arrozais como se fossem deles. O cheiro a terra molhada mistura-se com o a azinhal do sapal. Quando a maré baixa, fica uma crosta de lama brilhante onde as crianças gostam de pisar — até perderem o sapato.
O pinhal, do outro lado, é outro mundo. Entra-se por um caminho de areia onde o silêncio é tão grosso que se ouve o próprio coração. O chão está coberto de pinhas secas que estalam sob os pés como pequenos fogos de artifício. É ali que, em Agosto, o Clube de Astronomia monta os telescópios. Vêm de Aveiro, trazem sandes de queijo e garrafas de água, e passam a noite a apontar para o céu. Os miúdos da aldeia ficam colados aos olhares, a ver Saturno pela primeira vez — um anelzinho ténue que parece de brincar.
O que se faz quando não se vai embora
Às Janeiras, os rapazes do grupo “Os Charolas” — esse sim, com nome — ensaiam no café, acompanhados por uma guitarra desafinada e um cavaquinho que já perdeu a verniz. Vêm de porta em porta, começam sempre pela mesma cantiga, mas no fim pedem “um pedacinho de chourição” e um copo de vinho, que ninguém lhes nega. No Domingo Gordo, queimam o “careto” numa fogueira feita com paletes que o Sr. João guardou o ano todo. As crianças gritam, os adultos aquecem as mãos na brasa e há sempre um cão que ladra para as faíscas que sobem.
Quando o sino bate outra vez, já ninguém liga. É só o tempo da broa esfriar, das enguias regressarem ao rio, das vozes da Janeira se perderem na noite. Sosa fica ali, entre o Vouga e o pinhal, a respirar devagar — como quem espera que a maré volte a subir para ter outra desculpa de não ir além da ponta da estrada.