Artigo completo sobre Cepelos: altitude, fumeiro e romarias na Gralheira
Freguesia de Vale de Cambra onde o xisto resiste, o gado pasta livre e as festas marcam o calendário
Ocultar artigo Ler artigo completo
O fumo sobe direito do fumeiro de xisto, lento e denso, carregando o cheiro a lenha de pinho e a carne salgada que cura há semanas. Aqui, a 538 metros de altitude, o ar da Gralheira chega cortante nas manhãs de nevoeiro, mas ao meio-dia o sol bate forte nas encostas voltadas a sul, onde os lameiros verdes alimentam as vacas Arouquesas e os cabritos que pastam entre carvalhos e pinheiros bravos. Cepelos respira devagar, ao ritmo das estações e dos ciclos agrícolas que marcam esta freguesia de Vale de Cambra desde o século XIII.
Terra de altitude e raízes fundas
O topónimo vem do latim Cepelum, colina ou elevação — nome que faz sentido quando se percorrem os caminhos rurais que sobem e descem entre vales estreitos e cumeadas abertas sobre o rio Caima. Durante a Idade Média, pequenos agricultores povoaram estas terras, cultivando milho e centeio nos socalcos, criando gado para subsistência e comércio. A paróquia cresceu devagar, igreja, espigueiros e moinhos de água erguidos em granito cinzento que resiste ao vento e à chuva. Hoje, a freguesia reúne 1157 habitantes numa área de quase 1900 hectares, densidade baixa que se traduz em silêncio e em horizontes largos onde só se ouve o sino da igreja ou o motor distante de um tractor.
Romarias, fogueiras e missas campestres
Três festas estruturam o calendário de Cepelos: Santo António em Junho, São Pedro no fim do mesmo mês e, em Setembro, a Romaria de Nossa Senhora da Saúde. Esta última junta procissão, feira de artesanato e tasquinhas onde o cabrito assado na brasa brilha ao lume, acompanhado de vinho verde gelado e de batata assada na cinza. As mulheres trazem tabuleiros de pão de ló e doces de ovos, receitas conventuais que passam de mãe para filha. À noite, os bailes arrancam ao som de concertinas e percussão, pés que batem a terra batida até de madrugada. A devoção mariana e o ciclo litúrgico tradicional não são aqui folclore para turistas — são compromissos que reúnem gerações, desde os 97 jovens até aos 374 idosos recenseados em 2021.
Cabrito da Gralheira e carne de raça Arouquesa
A gastronomia de Cepelos não inventa: aproveita o que a altitude e os pastos de montanha oferecem. O Cabrito da Gralheira, certificado IGP, pasta livre entre urzes e tojos, carne magra e aromática que se assa lentamente com alecrim e alho. A Carne Arouquesa DOP, de vacas criadas em regime extensivo, entra no bolo de carne — guisado denso com enchidos, sangue e especiarias, cozido em panela de ferro durante horas. Para adoçar, o Mel das Terras Altas do Minho DOP, cor âmbar escura e sabor intenso a castanheiro e urze, espalhado sobre broa quente ou dissolvido em aguardente velha. Não há menu impresso: há o que a época dá e o que a memória guarda.
Trilhos entre espigueiros e ribeiras
Percorrer os caminhos rurais que ligam Cepelos a Macieira de Cambra e Roge é caminhar entre fragmentos de uma paisagem agrícola ainda viva. Espigueiros de madeira e pedra guardam milho seco, moinhos de água desactivados mostram rodízios de madeira apodrecida pelo musgo. As ribeiras afluentes do Caima correm frias mesmo em Agosto, margens cobertas de fetos e salgueiros onde se ouve o canto do melro e o zumbido de insectos. A flora mistura espécies atlânticas e mediterrânicas: carvalhos-alvarinhos, pinheiros bravos, giestas amarelas que explodem em Maio. O núcleo museológico do Grupo Desportivo de Cepelos reúne alfaias agrícolas, jugos de bois, candeeiros de azeite e fotografias a sépia de romarias antigas — pequeno arquivo que documenta um quotidiano em transformação lenta.
Pinheiros de ouro e uvas no brasão
O brasão da freguesia exibe dois pinheiros de ouro e um cacho de uvas, símbolos da floresta que cobre as encostas e da pequena vinha tradicional que resiste em socalcos virados a nascente. A economia local depende hoje sobretudo da indústria da madeira e da metalomecânica, sector secundário que emprega parte da população activa que não vai para o Porto ou Aveiro trabalhar. Os jovens partem cedo, mas há sempre quem regresse para construir casa ou abrir um alojamento rural — são nove, de momento, moradias com vista para a serra que atraem quem procura altitude, silêncio e trilhos sem pressa.
Ao entardecer, quando o sol rasante incendeia os pinheiros e o fumo dos fumeiros volta a subir direito, Cepelos revela-se no cheiro a resina quente, no frio súbito que desce dos cumes da Gralheira e no eco distante de um sino tocando as ave-marias. Não é preciso mais para perceber que se está em altitude — longe do litoral, perto das raízes.