Artigo completo sobre Gomes Aires: onde o montado comunitário define a paisagem
Planalto alentejano de baldios, rapinas e silêncio entre sobreiros e azinheiras centenárias
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O horizonte alarga-se até onde a vista alcança, uma linha ondulada de montado onde o sobro e o azinho se sucedem em manchas cinza-esverdeadas. O silêncio aqui tem densidade própria — apenas quebrado pelo guincho distante de uma águia-calçada e pelo farfalhar seco da esteva quando o vento sopra do vale. Gomes Aires estende-se por 6 548 hectares de planalto alentejano, onde a terra batida dos caminhos rurais desenha uma geometria antiga entre pastagens e cortiços. A povoação, com os seus 392 habitantes, respira ao ritmo lento das estações e do gado que pasta sob as azinheiras. São tão poucos que, se forem todos ao café do Zé no domingo, ainda sobram cadeiras.
Território de baldios e nomes antigos
O topónimo remonta a um medieval "Gomes Arias", nome próprio que se fixou à terra e atravessou séculos. Mais de 80 por cento da freguesia são baldios ou montado comunitário, facto que explica porque é que pode andar meia-hora de carro sem ver uma alma. Não há aqui monumentos classificados — nem Nacionais, nem de Interesse Público —, o que não falta é igreja com porta aberta e cemitério onde os nomes se repetem há trezentos anos. A escola primária encerrou em 2009; desde então, o autocarro busca as crianças às sete da manhã e só as traz ao fim da tarde. O edifício está lá, com a pintura a descascar, como quem espera que o próximo governo mude de ideias. Entretanto, 165 habitantes têm mais de 65 anos e só 28 andam ainda nos bancos da escola. Faz as contas.
Caminhos entre ruínas e rapinas
Os trilhos de terra batida que ligam a povoação à herdade da Contenda são bons para quem gosta de andar sem pressa e levar sapatos que não importam sujar. No monte do Vale de Cestos, as ruínas de um antigo moinho de vento erguem-se contra o céu, a pedra calcária gretada como as mãos de quem trabalhou a terra durante cinquenta anos. Ao entardecer, o montado próximo do Ribeiro de Almodôvar transforma-se em palco de observação: peneireiros pairam no ar imóvel, coelhos-bravos atravessam as clareiras em saltos rápidos, o javali deixa sinais de chafurda na terra húmida junto à ribeira. Leve binóculos e não grite, que isto não é a Expo.
Mesa de borrego e queijo amanteigado
Na quinta do Rocim, o queijo fresco chega ainda morno das mãos do produtor, amanteigado e intenso como manda a tradição do Queijo Serpa DOP. Se lhe derem um pedaço, aceite — não se faz favor recusar comida em Gomes Aires, é má educação. O Borrego do Baixo Alentejo IGP aparece em cozidos de grão que cozem no fogão à lenha durante o tempo que leva a resolver três problemas do mundo. Sopa de tomate com ovo escalfado, migas com espargos silvestres apanhados nos campos, encharcados que encharquem de calda ao primeiro corte — a cozinha caseira reflecte o calendário agrícola e o que a terra oferece sem pressa. Os vinhos de mesa regionais, tintos encorpados ou brancos frescos, acompanham as refeições em copos grossos, sem etiqueta nem denominação de origem, apenas a honestidade da uva local. Se pedir água, trazem-na na jarra, mas olhe que o vinho é mais saudável.
A 15 quilómetros, Almodôvar oferece o Museu Municipal e as muralhas do castelo; a 30, o Parque Natural do Vale do Guadiana desdobra outras paisagens. Mas é aqui, no vazio povoado de Gomes Aires, que o Alentejo se mostra sem filtro: o eco dos próprios passos na terra seca, o calor da pedra ao meio-dia, o perfume a rosmaninho que sobe quando se pisa o mato baixo. Venha, mas venha com tempo. E depois, conte-me se valeu a pena.