Artigo completo sobre Vila Nova da Baronia
Freguesia alentejana de Alvito preserva tradições centenárias entre olivais e queijarias artesanais
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O sol da manhã aquece a cal das paredes, e o silêncio da planície quebra-se apenas com o ladrar distante de um cão. Vila Nova da Baronia estende-se sobre a ondulação suave do Alentejo interior, a cento e sessenta e sete metros de altitude, onde os campos de cereal alternam com o verde-escuro das oliveiras. Aqui, a densidade de oito habitantes por quilómetro quadrado não é estatística — é respiração, é o espaço que existe entre uma casa e outra, entre um cumprimento e o seguinte.
Terra de azeite e queijo
Os mil e oitenta e quatro habitantes desta freguesia distribuem-se por cento e vinte e oito quilómetros quadrados de planície ondulada. Nos lagares, o Azeite do Alentejo Interior DOP nasce de olivais que resistem ao calor do Verão e ao frio cortante de Janeiro. O cheiro a azeitona esmagada impregna o ar no Inverno, quando as prensas trabalham e o ouro verde escorre para as talhas de barro. Nas queijarias, o Queijo Serpa DOP cura lentamente, a pasta cremosa ganhando complexidade com o tempo. O Borrego do Baixo Alentejo IGP pasta nos montados, a carne adquirindo o sabor subtil das ervas aromáticas que crescem entre as pedras.
Pedra que conta séculos
Três imóveis de interesse público pontuam a paisagem construída da freguesia: a Igreja Matriz de Vila Nova da Baronia, o Pelourinho e o Paço de Vila Nova da Baronia, testemunhos de uma ocupação humana que se estratificou desde o período visigótico, passando pela reconquista cristã e pela organização medieval do território. A arquitectura alentejana revela-se nas fachadas caiadas, nas chaminés rendilhadas, nos portais de cantaria que sobrevivem ao tempo. O granito das ombreiras contrasta com a brancura das paredes — materialidade que fala de mãos que trabalharam a pedra, de conhecimento transmitido entre gerações. Seis monumentos classificados preservam memórias que a oralidade já não consegue guardar sozinha.
O peso dos anos
Trezentos e vinte e quatro habitantes têm mais de sessenta e cinco anos, contra cento e vinte e três jovens até aos catorze. A matemática é simples e dura: por cada criança que corre nas ruas, há quase três idosos sentados à sombra. As escolas esvaziam-se - a EB1 de Vila Nova da Baronia fechou portas em 2017, juntando-se à EB1 de Pardais que já tinha encerrado em 2011 - mas as memórias acumulam-se nos cafés, como o "Café Central" ou o "A Paragem", onde os homens jogam sueca e comentam a chuva que não veio ou o trigo que cresceu demais. A emigração deixou casas fechadas, postigos de madeira que rangem ao vento, jardins onde a erva cresce selvagem entre os canteiros de buxo.
Dormir na planície
Onze alojamentos oferecem cama a quem procura a quietude do interior alentejano — casas de turismo rural como o "Monte da Baronia" ou o "Herdade da Baronia", apartamentos no centro da vila, e o estabelecimento de hospedagem "Quinta da Baronia" que permitem prolongar a estadia para lá da visita rápida. Não há multidões nem filas de espera. O turismo aqui mede-se pela conversa pausada com o Zé do café, pelo pequeno-almoço onde o pão do "Forno da Aldeia" ainda está quente, pelo conselho sobre o melhor caminho para ver o pôr do sol sobre a planície - subir ao monte junto ao cemitério, onde se avista toda a veiga do Alvito até ao horizonte.
A tarde cai devagar sobre Vila Nova da Baronia. Na rua da Liberdade, a D. Rosa varre a soleira como faz há cinquenta anos, o som ritmado da vassoura sobre a calçada misturando-se com o chilrear das andorinhas que regressam aos ninhos sob o beiral da Igreja. O cheiro a lenha de azinheira sobe da chaminé do Sr. António, que ainda corta a lenha com o machado do pai. Amanhã, o sol voltará a aquecer as mesmas pedras, e a planície continuará a respirar ao seu próprio ritmo — nem apressado nem esquecido, apenas constante.