Artigo completo sobre Faro do Alentejo: pão quente e silêncio branco
Uma freguesia de 485 habitantes onde o fumeiro, o azeite DOP e o queijo Serpa contam a história
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O cheiro a lenha que ainda se sente nas duas padarias — a de José Augusto, aberta desde 1978, e a da Conceição, que só funciona aos fins-de-semana — cruza-se com o aroma do pão de caldeira que só se faz às sextas. Na rua 5 de Outubro, a única ladeada de sobrados do século XIX, a cal reflecte o sol de tal forma que a Câmara chegou a colocar toldos em 1995, depois de três idosos terem sofrido insolações. São dez e meia da manhã e o silêncio parte-se com o motor da pick-up do Sr. Aníbal, que vai buscar o pão para a herdade de São Brás onde, desde 1963, trabalha como caseiro.
Os números do INE de 2021 contam o resto: 485 habitantes, 66 com menos de 20 anos, 125 com mais de 65. A escola encerrou em 2009 por falta de alunos; hoje a criançada apanha o autocarro às 7h15 para Cuba, onde frequentam o 1.º ciclo que aqui já não existe. A densidade populacional desceu de 15,2 para 10,9 hab/km² desde 1991, mas ninguém precisa de estatísticas para perceber que o lugar envelhece: basta ver as campas novas do cemitério, onde desde 2020 se enterram mais pessoas do que nascem na vila.
A mesa como geografia
O azeite com DOP "Alentejo Interior" vem dos 1.200 ha de olival existentes na freguesia, concentrados nas herdades da Contenda, da Comenda e do Juncalinho. A Cooperativa de São Brás paga 3,20 €/kg pela azeitona, o que explica por que motivo ainda se colhe à mão durante as duas primeiras semanas de Novembro, quando as famílias se organizam em "grupos de jeito" que trocam trabalho entre si. O queijo Serpa que se come aqui é feito por Natália Matias, na quinta do Peso, com leite das suas 230 ovelhas merinas; vende-se directamente à porta por 14 €/kg, embrulhado em papel de estraza.
No Inverno, a matança do porco mantém-se em 38 das 165 habitações permanentes. O fumeiro, normalmente uma divisão improvisada atrás da adega, recebe as chouriças no dia 15 de Dezembro e tira-as no dia 20 de Janeiro, depois de 35 dias a fumar com carvalho e medronheiro. O vinho é outra história: desde 2017 que a família Carvalho, da herdade do Pinheiro, deixa de vender uva à Cave de Vidigueira e começa a fazer 3.000 garrafas de tinta em barrica de carvalho francês, vendidas a 8 € na porta da adega.
O peso do silêncio
A freguesia ocupa 4.456 ha, dos quais 62 % são montado de sobro e azinheira. A estrada municipal 508, a única asfaltada que atravessa o lugar, foi alcatroada em 1994, depois de 12 anos de pó e 3 acidentes mortais. Nas tardes de Agosto, quando o termómetro da herdade da Comenda bate nos 44,5 ºC, o silêncio é interrompido pelo tractor do Sr. João que transporta rollos de feno para as ovelhas — são 18 km de estrada de terra até à pastagem, percorridos em 45 minutos.
Não há qualquer monumento classificado, mas há a fonte da Foupana, onde se encontraram três moedas de prata de D. João III (descobertas em 1982 por um agricultor a lavrar) e a capela de Santo António, reconstruída em 1926 depois do terramoto de 1858 lhe ter derrubado a cúpula. Quando o sino da igreja matriz toca às seis — um badalo de 1837 fundido com bronze de canhões da Guerra Civil — ecoa até à herdade do Juncalinho, a 3 km, onde a Dona Alice ainda regula o relógio por ele.