Artigo completo sobre Santana de Cambas: 166 km² de montado alentejano
Freguesia de baixa densidade em Mértola onde cortiços de pau-a-pique resistem entre azinheiras
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O sol da tarreirinha bate na terra como quem esqueceu o pão no forno: primeiro de mansinho, depois com vontade. As azinheiras fazem sombra suficiente para três cães dormirem em roda, mas não mais do que isso. Santana de Cambas é aquela tia que vive sozinha no fim do mundo: sabe o nome de todas as aves, mas nem sempre lhe apetece dizer. Tem 166 km² — mais do que o Porto inteiro — mas aqui cabem 750 pessoas, contando com o Zé das Cabras que só desce ao café aos sábados.
Onde as casas se encontram
Não há centro, há pontos. O Barro Branco, o Alto da Eira, o Vale de Ferro — nomes que soam a inventados, mas são bem reais. Os cortiços ainda resistem: paredes de barro que parecem querer voltar à terra, portas baixas onde os netos batem a cabeça desde sempre. No pátio, as mulheres falavam de trás dos lenços; hoje falam de trás das redes sociais, mas ainda há quem traga a cadeira de vime para a porta quando o dia arrefece.
O que se come (e como se come)
Há três regras: borrego em lume brando, azeite que escorra pelo pão, queijo que se espalhe sozinho. A Tia Albertina faz açorda com coentros do seu quintal — "se não arder, não é de Deus". O vinho vem em garrafões de cinco litros, tira-se na bomba de gasolina de Mértola, mas pergunta-se primeiro quem é o dono da vinha. Não há menus, há "hoje há isto". Come-se o que se matau ontem, bebe-se o que se engarrafou no mês passado.
O que se faz (além de respirar)
O trilho do Ribeiro de Cambas é como a vida: começa fácil, depois há uma subida que faz jurar que não se bebe mais. Mas vale a pena: ao fim há um poço onde a água está fria o ano todo e onde o Zé Manel se afogou bêbedo em 73. Dizem as más línguas que era para fugir à mulher. O miradouro do Castelo de Mértola vê-se tudo: a freguesia como um tapete de verdes rasgados, o Guadiana que parece não querer chegar ao mar, as adegas abandonadas onde ainda há tonéis com datas de 1960.
Como se chega (e porque se fica)
Vem-se de Lisboa em duas horas e meia, mas parecem cinco. Primeira regra: não stresses com o pó. Segunda: leva sapatos que já estejam estragados. Terceira: deixa o relógio em casa. Aqui o tempo não se perde — estica-se. E quando pensas que já viste tudo, aparece uma raposa na estrada, ou o cheiro da esteva a queimar, ou o Zé das Cabras que te convida para ver o ninho de águia que só ele sabe onde fica.
Santana de Cambas não é para contar aos amigos de Lisboa que fosto "passar o fim-de-semana no Alentejo". É para quando precisas de um sítio onde o silêncio tenha sabor de azeite e onde as estrelas ainda competem com as luzes das casas. Vais embora com a camisola cheira a fogo, com o telemóvel sem rede, e com a certeza de que há sítios onde o mundo ainda não aprendeu a pressa.