Artigo completo sobre Boavista dos Pinheiros: a freguesia mais jovem de Odemira
Nascida em 2001, une pinhais, indústria e memória recente no coração do vale do Mira
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O pó da estrada assenta devagar nas margens do vale do Mira. Ao fundo, entre pinheiros que se perdem na linha do horizonte, ouve-se o murmúrio discreto da nascente da Pipa, que abastece a horta de José Marques desde 1958. Aqui, a setenta e seis metros de altitude, Boavista dos Pinheiros estende-se como um território recente — nascido em 19 de abril de 2001, quando o Diário da República publicou o decreto 23/2001 que desanexava 37,8 km² de São Salvador e Santa Maria. O nome não mente: do alto do Cepinho vê-se longe, até onde a charneca de S. Domingos encontra a serra de Monchique. E os pinhais, plantados em 1926 durante a campanha de reflorestação do Estado Novo, marcam cada curva da EN393 como uma assinatura verde.
Uma freguesia que ainda cheira a novo
Abril de 2001 trouxe mais do que a primavera. Trouxe autonomia a 1.847 habitantes que desde 1993, ano da primeira petição entregue na Câmara de Odemira, lutavam pela separação. Horácio de Oliveira Gonçalves, sapateiro de profissão, tornou-se o primeiro presidente da Junta em 16 de dezembro de 2001, com 73% dos votos num acto que reuniu 62% de participação — números que ainda hoje se discutem no Café Central, aberto desde 1987. É uma história curta, sem séculos de pergaminhos nem lendas de mouros — mas é história viva, contada por Maria do Céu, 78 anos, que guarda em casa o original da petição com 1.236 assinaturas.
Não há igrejas classificadas nem castelos em ruína. O que existe é o Parque das Águas, inaugurado a 15 de maio de 2004, onde funcionou entre 1974 e 1999 a ETA (Estação de Tratamento de Água) que servia Odemira e Salvador. As crianças correm entre os 3,2 hectares de carvalhos-alvarinhos plantados em 2005; os mais velhos sentam-se no banco onde António "Tozé" used to controlar as válvulas da ETA, recordando quando a água chegava turva às torneiras. O parque integra o Polo de Educação Ambiental Sítio da Costa Sudoeste, gerido pela Câmara desde 2006, ponte concreta entre a vida quotidiana e o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina a 18 km.
O pulso industrial e o ritmo agrícola
Chamam-lhe o «Pulmão Industrial de Odemira», expressão cunhada por Jorge Valente, presidente da Câmara em 2008, quando o Parque Industrial ocupava já 22 hectares. São 37 empresas instaladas desde 2003, da Simoldes Plásticos à Iberol, passando pela Frutineves que emprega 180 pessoas na campanha da ameixa. É uma dualidade sem conflito: às 7h45, o autocarro da Frutineves apanha os trabalhadores junto ao Café Regional; às 8h, as galinhas do Henrique soltam-se ainda pelo caminho de terra batida que separa a fábrica da sua horta de 2 hectares. Nas 37,8 km² da freguesia, os 1.975 habitantes (dados provisórios de 2023) geram 14% do PIB de Odemira — número oficial da Câmara.
Agosto traz a Festa em Honra de Nossa Senhora da Boavista, organizada pela Comissão de Festas desde 2002. Durante três dias, o coreto montado na Praça 19 de Abril recebe os GNR de Lisboa que regressam aos avós, enquanto a Filarmónica Cultural de Odemira toca o mesmo repertório desde 1987. Não é uma romaria de multidões — são cerca de 3.500 presenças ao longo do fim-de-semana, contadas pela PSP — mas tem o peso justo dos reencontros e das promessas cumpridas no adro da igreja de 1953. Em maio, a feira anual do segundo domingo repete o ritual — 72 bancas de ferragens, tecidos da Antónia, queijos curados do Zé "da Serra", conversas pausadas entre quem se conhece pelo nome próprio desde a escola primária, fechada em 2011.
Caminhar entre nascentes e pinhais
Os trilhos que rasgam a charneca não têm sinalização turística elaborada. Seguem a lógica antiga dos caminhos de água: o da Pipa, que desce 2,3 km até ao Mira; o do Carrascal, onde a nascente secou em 2012 mas o nome ficou; o da Fonte Santa, onde as mulheres lavavam roupa até 1978. O vale do Mira, a 4 km de distância em linha recta, desenha meandros onde a vegetação se adensa — salgueiros portugueses junto às margens, pinheiros bravos nas encostas norte, eucaliptos plantados em 1998 na herdade da Frutineves. O silêncio aqui tem textura: é denso como a resina que escorre dos troncos de 80 anos, fresco como a água que brota a 14°C das nascentes escondidas entre xistos cambrianos.
Ao entardecer, quando a luz rasante doura os pinhais plantados por mão de presidiários em 1926 e as sombras se alongam sobre as hortas regadas por gotejamento desde 2015, Boavista dos Pinheiros revela-se no que tem de mais concreto: o ranger do portão da D. Idalina, construído em 1963 com madeira de pinheiro do próprio monte; o fumo branco que sobe da chaminé do Zé "do Prego", onde ainda se queima eucalipto; o perfume adocicado da terra de xisto acabada de regar, misturado com o cheiro a cortiça do sobreiro centenário que sobreviveu ao incêndio de 2003. Não é preciso procurar monumentos. Basta deixar que o vale respire ao seu ritmo — lento, industrial e agrícola ao mesmo tempo, jovem de certidão (22 anos) mas enraizado no gesto repetido de quem conhece cada nascente pelo nome que os pais lhe ensinaram.