Artigo completo sobre Colos: onde o montado alentejano dita o ritmo da vida
Freguesia de Odemira com 820 habitantes, queijo Serpa DOP e borrego assado em forno de lenha
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O vento percorre as colinas baixas de Colos sem encontrar obstáculo, arrastando consigo o cheiro a terra seca e a resina dos sobreiros. Nas estradas estreitas que cortam o montado, o alcatrão cede lugar à terra batida e o silêncio instala-se denso, interrompido apenas pelo canto distante de uma ave de rapina. Aqui, a 158 metros de altitude, o Baixo Alentejo mostra-se sem artifício: pastagens extensas, matos baixos, horizontes largos que respiram devagar.
Esta freguesia de 820 habitantes distribui-se por mais de dez mil hectares — o suficiente para cada pessoa ter quase 12 hectares só para si. Os sobreiros pontuam a paisagem com as suas copas arredondadas, e entre eles pastam rebanhos de ovelhas que alimentam uma das tradições mais antigas da região: a produção de queijo de ovelha. O Queijo Serpa DOP nasce destes rebanhos que percorrem livremente o montado. Quando se parte uma peça fresca, a pasta cremosa tem o sabor da erva rasteira queimada pelo sol e do leite ainda morno.
A mesa que o rebanho sustenta
A cozinha de Colos constrói-se em torno do rebanho ovino. O Borrego do Baixo Alentejo IGP, assado em forno de lenha até a pele ganhar uma crosta estaladiça, é o centro da mesa em dias de festa. A carne, tenra e perfumada por tomilho e rosmaninho, acompanha-se de batatas assadas no mesmo tabuleiro, impregnadas da gordura que escorre durante horas. O queijo, curado em caves frescas onde o tempo se mede em luas, apresenta-se ao natural ou derretido numa sopa de pão alentejana. A Batata Doce de Aljezur aparece nos dias de feira, vendida em sacos de rede por produtores que chegam de manhã cedo.
Dentro do parque natural
Colos integra o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, embora aqui o mar se sinta apenas no vento que traz sal. Os caminhos de terra que ligam Colos a São Martinho das Amoreiras atravessam vales onde a esteva marca o olhar com o seu verde-acinzentado. Águias-reais sobrevoam o céu à procura de coelhos, e é comum ver o rasto ondulado de uma cobra-de-água atravessar a estrada depois de chover. O ribeiro de Colos leva apenas água de inverno, mas nas suas margens crescem tamareiras que servem para fazer cestos.
Percursos sem destino fixo
Percorrer as estradas rurais significa aceitar que o tempo é outro. A EN393 serpenteia entre montados onde as cortiças mostram as marcas de anos de extracção — 2019, 2015, 2011 — numeradas a tinta branca. Na Curva do Vale, o café O Forno ainda serve bicas a dez cêntimos, desde que leves a tua própria torrada. José Maria, na quinta das Fontainhas, mostra o queijo curado se lhe telefonares antes, mas avisa: "Só venha quem gosta de andar a pé, porque o carro fica a meio do caminho". Não há placas turísticas nem centros de interpretação. A experiência constrói-se quando Célia, na mercearia, parte um pedaço de queijo para provar, ou quando o forno do padre acende às 4 da manhã para o pão do domingo.
A população envelhecida — 277 idosos para apenas 61 jovens — desenha uma realidade que se sente no silêncio das ruas à hora da sesta. Mas é também este tempo suspenso que permite a Colos manter intactas as práticas que conheço desde criança: o pastoreio que começa ao amanhecer, o ordenho manual às mãos do António que já não consegue fechar o punho, mas ainda faz o gesto exacto. Quando o sol desce e a luz rasante incendeia os troncos dos sobreiros, o vento volta a percorrer as colinas, trazendo o eco do sino da igreja que toca às sete sem falhar. E nesse momento, a paisagem revela a sua verdadeira medida: não se conta em quilómetros, mas nas gerações que a pisaram antes de nós.