Artigo completo sobre Longueira/Almograve: entre o Mira e o Atlântico
Freguesia criada em 2001 une charneca alentejana, falésias e praias selvagens no litoral vicentino
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O vento empurra a espuma do Atlântico contra as falésias escuras. Lá em baixo, encaixada entre os rochedos, a Praia do Almograve estende um areal largo onde a rebentação chega em rolos brancos e densos. Ao longe, na linha onde o mar encontra a foz do rio Mira, a Praia das Furnas desenha-se numa curva suave. Aqui, entre a charneca que se espalha para o interior e a costa recortada do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, Longueira/Almograve é uma das freguesias mais jovens do concelho de Odemira — criada apenas em 2001, depois de anos de reivindicação de autonomia.
A freguesia que nasceu há duas décadas
Em 1996, uma comissão promotora deu os primeiros passos para desanexar este território da freguesia de Salvador. Cinco anos depois, a autonomia chegou. A área estende-se entre o mar e a margem sul do rio Mira, dominada pela vegetação rasteira da charneca e pelo vale fluvial. O nome "Longueira" pode estar ligado à extensão do território — uma sugestão inscrita na própria geografia do lugar, que se alonga entre água doce e água salgada.
O moinho que vigia a charneca
No interior, ergue-se o Moinho de Vento da Longueira, uma construção robusta do início dos anos 1920, adquirida pela Câmara Municipal de Odemira em 1991. As suas velas já não giram, mas a estrutura mantém-se íntegra, disponível para visitas. É uma das marcas mais visíveis desta paisagem onde o horizonte se alarga sem obstáculos, onde a luz rasante da tarde tinge a charneca de tons ocres e dourados. Na povoação do Almograve, a Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes serve de ponto de encontro religioso — a padroeira é celebrada no terceiro domingo de agosto, numa procissão que atravessa as ruas principais antes da feira.
Agosto e as feiras que enchem as ruas
Agosto é o mês em que Longueira/Almograve ganha movimento. No primeiro domingo, realiza-se a Feira Anual da Longueira; duas semanas depois, é a vez da Festa Religiosa e Feira Anual de Almograve. São dias em que as bancas ocupam as ruas e os habitantes — 2334 segundo os Censos de 2021 — saem de casa. É uma população que cresceu 72,4% entre 2011 e 2021, o maior aumento relativo de todo o país. Muitos chegaram atraídos pela natureza protegida, pela proximidade ao mar, pela luz crua desta costa.
Falésias, praias e o portinho mais pequeno
A costa desenha-se em praias encaixadas nas falésias. A Praia do Almograve é a mais conhecida, com o seu areal extenso e as ondas que atraem surfistas. Mais a norte, junto à foz do rio Mira, a Praia das Furnas oferece um cenário mais resguardado, onde a água doce se mistura com a salgada. E depois há o Portinho de Pesca da Lapa de Pombas, um dos mais pequenos de toda a costa alentejana — um recorte na rocha onde os barcos se abrigam, onde as redes secam ao sol e o cheiro a peixe fresco se mistura com o da tinta das embarcações.
Sabores protegidos
A gastronomia local ancora-se nos produtos certificados da região. O Borrego do Baixo Alentejo IGP, criado em pastagens extensivas, e o Queijo Serpa DOP, de pasta semimole e sabor intenso, são presenças garantidas nas mesas. A proximidade ao mar traz também o peixe fresco — caldeiradas, peixe grelhado, mariscos apanhados nas poças de maré. A Rota Vicentina atravessa a freguesia, trazendo caminhantes que percorrem os trilhos junto à costa ou pelo interior da charneca, onde o silêncio é denso e o canto das aves rasga o ar.
Ao fim da tarde, quando a luz amolece e o vento abranda, o som que fica é o da rebentação contínua nas falésias. Não há pressa, mas há movimento — o das ondas, o dos barcos que regressam, o das gaivotas que planam sobre a espuma. Longueira/Almograve respira ao ritmo do Atlântico, num presente que ainda se está a escrever.