Artigo completo sobre São Teotónio: Entre o Interior Alentejano e o Atlântico
A maior freguesia de Odemira une paisagens rurais, proximidade ao mar e vida autêntica do campo
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O vento cheira a sal e a esteva ao mesmo tempo — um cheiro que só existe aqui, a meia hora antes de chegar à praia. Na praça de São Teotónio, às sete da manhã, o café Central já está cheio de trabalhadores que falam crioulo e mandarim, com chapéus de sol berrantes em cima das mesas de formica. A carrinha da Frutas Dourantes descarrega caixas de framboesas que pingam sangue vermelho no chão de cimento.
Com 8699 habitantes espalhados por 347 km², São Teotónio é aquela freguesia onde conheces três pessoas no supermercado e sais com o número de telefone de cinco. A densidade é baixa — 25 pessoas por km² — mas no Intermarché às segundas-feiras parece que veio gente de todo o concelho. Há espaço, sim, mas há também aquela sensação de todo o mundo se conhecer, de olharem para o carro estrangeiro como quem diz "mais um".
A geometria de um território vasto
O terreno não é plano — sobe e desce em ondas de terra vermelha que partem os suspensos dos carros. A estrada nacional que vem de Odemira faz aquela curva famosa antes do cruzamento para a Er 123, onde o miúdo do Jaiminho morreu no acidente há dez anos. As ribeiras são três: a de Santa Clara, a de São Teotónio e a do Rogil, mas no Verão são só pedras e caruma. A luz de Julho é aquela que faz estalar a tinta dos carros estacionados — dourada, pesada, que te faz procurar sombra às dez da manhã.
O Parque Natural não é só uma linha no mapa — é o guarda que te multa se puseres música alta na praia, é o papel que tens de preencher para plantares três pés de tomate, é o sabe-tudo que te diz que não podes construir a garagem onde a tua avó sempre teve a garagem.
O pulso demográfico e a terra que alimenta
Desde que as estufas chegaram nos anos 90, a vila mudou de cor. Agora há um mercado chinês onde se vendem pauzinhos de massagem e chopsticks, e no Celeiro da Boa Esperança vendem-se cervejas que ninguém consegue pronunciar. Os filhos dos ucranianos que vieram para as framboesas já falam alentejano com sotaque, e a festa da Senhora da Graça tem bifanas e borscht.
O borrego é mesmo dos que pastam nos montados de azinheira — comes na Tasquinha do Zé, onde a Maria te serve com a frigideira ainda a ferver e o pão da padaria que fica a duas portas. A batata-doce vem de Vale de Janela, aquela localidade que tem duas casas e um campo que parece o fim do mundo. O queijo Serpa é do caseiro que aparece à sexta-feira à boca da noite, com o isqueiro BIC preso ao cinto para abrir a embalagem de plástico.
O quotidiano como experiência
São Teotónio não tem castelos nem museus — tem é o café Rosa onde o António toca gaita às terças, e o talho onde ainda te cortam o entrecosto na serra manual. Os 156 alojamentos são maiormente casas que pertenceram a avós, agora com Wi-Fi e nomes tipo "Monte da Paz" escritos em pedra de ardósia. A hostel do canadiano serve pão de fermentação natural que demora três dias a fazer — a padaria da Dona Alice faz pão em vinte minutos e sabe ao mesmo de sempre.
Quando o sol se põe atrás da serra, o calor fica preso na parede da tua casa como um gato que não quer sair. Do lado de lá da rua, a Susana está a grelhar sardinhas no jardim — o cheiro entra-te pela janela dentro e de repente tens fome. No café, o Joaquim e o Manuel ainda estão a discutir se o golo foi ou não foi, como estão há quarenta anos. Não há multida nenhuma, mas há aquela mulher que passa com os mesmos chinelos roxos desde 2003, e o cão que te segue até à esquina porque uma vez lhe deste um bocado de torrada.
Para quem vem de fora: as praias ficam a vinte minutos, mas leva toalha porque o vento é daquele que te cola a areia às costas. O caminho para a Amália tem aquele sítio onde o GPS perde sinal — é normal, toda a gente se perde aí. Leva água, leva protector, e leva aquela sensação de que estás a entrar num sítio que já foi mar e já foi mato e vai continuar a ser os dois, mesmo que a próxima estufa cresça onde hoje há piqueniques.
O som que fica
Há um momento — geralmente às 22h37, quando o café encerra e o cão do Manel para de ladrar — em que tudo fica em silêncio. Nesse instante, se estiveres no sítio certo (ao lado do muro da igreja, não no muro da câmara que lá está sempre aquela lâmpada estragada), ouves o nada. É um nada que cheira a esteva e a cinza de fogueira, que te faz pensar que o mundo acabou à tua porta e ficaste tu e as estrelas. Depois começa o zumbido dos ouvidos, e percebes que o silêncio também faz barulho — é esse que te fica no ouvido dias depois, quando estás no trânsito da cidade e te lembras que há sítios onde o tempo é outra coisa.