Artigo completo sobre Santana da Serra: fornos de pedra e montes do Caldeirão
Freguesia de Ourique onde o pão coze em fornos comunitários e o medronho destila nos montes
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O fumo sobe direito da chaminé do forno de pedra encostado à casa, e o cheiro a lenha de sobreiro mistura-se com o aroma adocicado do pão que coze lá dentro. Nos montes dispersos pelos cabeços, estes fornos comunitários continuam a pontuar a paisagem de Santana da Serra, testemunhos de uma forma de vida que se recusa a apressar. Aqui, no recorte acidentado dos contrafortes da Serra do Caldeirão, a 199 metros de altitude média, a freguesia estende-se por 192,6 km² onde vivem 660 pessoas — 3,46 habitantes por km². Muitas residem nos montes isolados: Monte do Pêgo, Monte Novo, Monte do Malhadinho, distantes 5, 8, 12 km do núcleo central.
Pedra antiga, raízes profundas
O povoamento desta serra é anterior à memória escrita. No Povoado do Cortadouro (37°29'45"N, 8°19'12"W) e na Necrópole do Pêgo, o Neolítico e o Calcolítico deixaram vestígios classificados em 1970 pelo IGESPAR — fragmentos de uma presença humana que remonta a 5 000 a.C. O nome aparece documentado em 15 de Agosto de 1533 na "Memória das Povoações do Reino" como Santa Ana, ganhando o complemento "da Serra" em 13 de Março de 1653, distinção necessária para a separar de Santana de Cambas (Mértola) e Santana da Carnota (Castro Verde). Pertenceu à Comenda de Santiago de Ourique desde 1234, e durante a guerra civil miguelista (1832-1834) estas encostas serviram de refúgio a José Joaquim Sousa Reis, o Remexido, que em Dezembro de 1833 escreveu ao comandante militar de Ourique desde o monte do Malhadinho.
A Igreja Matriz de Santo António, reconstruída em 1755 após o terramoto, ergue-se no Largo da Igreja com a sobriedade característica da arquitectura religiosa alentejana — nave única, altar-mor em talha dourada do século XVIII. A capela de Nossa Senhora da Cola, a 3 km na direcção de Santa Clara-a-Velha, marca a devoção aos "7 passos da Nossa Senhora" celebrada em 15 de Agosto. Mas são os 47 fornos de pedra registados pela Câmara de Ourique em 2021 e os 23 alambiques de cobre licenciados para medronho, espalhados pelos montes, que contam a história quotidiana desta terra — objectos de trabalho que se tornaram património vivo.
Sabores da serra, feitos à mão
A Feira dos Sabores da Serra, realizada desde 2008 no primeiro fim-de-semana de Novembro, reúne 35 produtores locais. Há mel de sobreiro e medronheiro de José Palma (Monte do Pêgo), aguardente artesanal de medronho destilada nos alambiques de cobre de Carlos Pires (Monte Novo) — 45% vol., queijo Serpa DOP curado 60 dias em cave de Manuel Cardoso (Corte Gafo), Borrego do Baixo Alentejo IGP de António Brito (Monte da Estrada). O pão alentejano de Maria da Graça sai do forno às 7h com 1,2 kg, côdea estaladiça, miolo denso. Os enchidos de Ana Paula — paio de Santana, chouriço de vinho, toucinho de cebolada — curam 90 dias no monte do Malhadinho. Há mantimentos de tecelão de Júlia Silva, padrões geométricos de raiz islâmica, tecidos em tear de 1902 herdado da avó.
Entre cabeços e ribeiros
A paisagem é acidentada: Cabeço da Forca (432 m), Cabeço do Malhadinho (387 m), Cabeço do Pêgo (354 m). Os ribeiros Pêgo, Gafo e Carrasco desaguam no Mira a 6 km. Medronheiros com 80 anos, sobreiros descorticados em 2023 (lote 17-C/Ourique), azinheiras com 3 m de perímetro, esteva e rosmaninho compõem o mato serrano. A Barragem de Santa Clara-a-Velha, a 12 km, permite pesca do achigã e passeios de kayak. Os trilhos pedestres — PR1 "Caminho do Pêgo" (8,3 km), PR2 "Caminho do Gafo" (12,1 km) — oferecem vistas sobre o Baixo Alentejo interior. Águias-reais nidificam no Cabeço da Forca; milhafres-galegos sobrevoam os campos de bola-rola. A caça menor — coelho-bravo, perdiz, rola — mantém-se com 15 caçadores locais licenciados.
Caminhar até às ruínas do Castelo de Cola (37°28'N, 8°21'W) exige 45 minutos de subida desde o Pêgo. As estações arqueológicas do Cortadouro e Pêgo estão abertas terças e quintas mediante marcação na Junta. Nos montes, as casas brancas aparecem isoladas entre sobreiros: cada uma com o seu forno de pedra com 1,5 m de diâmetro, o seu quintal com oliveiras e amendoeiras, a sua cisterna de 12 m³. O vizinho mais próximo fica a 800 m, não a 80.
Ao fim da tarde, quando o sol rasante incendeia o xisto das encostas às 18h30 em Agosto e o fumo dos fornos volta a subir direito no ar parado, o silêncio da serra instala-se denso. Apenas o sino da igreja, tocando as Ave-Marias às 19h, atravessa os cabeços e chega aos montes mais afastados — sinal sonoro que une, por breves instantes, toda esta geografia dispersa.